sexta-feira, 5 de maio de 2023

História viva do Naça

Como time da quarta divisão sobrevive em uma das áreas mais caras de São Paulo.

Vizinho de luxuoso empreendimento da capital, Naça tenta renascer enfrentando penhoras e assédio de construtoras do outro lado da avenida onde estão os Centro de Treinamento de Palmeiras e São Paulo.

Localizada na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo, a Avenida Marquês de São Vicente divide mundos opostos. 

De um lado, os Centro de Treinamentos de São Paulo e Palmeiras, gigantes do futebol brasileiro. 

Do outro, ocupando uma área de 80.000m², está o Nacional, um clube centenário e tradicional que hoje agoniza na quarta divisão do estado lutando contra dívidas e sob o assédio de construtoras.

Embora o estádio Nicolau Alayon seja tombado como patrimônio histórico e cultural da capital paulista, o restante do terreno onde funciona o Naça não é. 

E aí entram as sondagens de grupos imobiliários que frequentemente tentam convencer os dirigentes a vender parte da propriedade. 

Algo que não está nos planos do clube, como diz o vice-presidente Edison Gallo, de 77 anos:

"Já tentaram comprar aqui, sempre teve muita especulação. O próprio condomínio próximo tentou. Tivemos notícias também de que o Palmeiras já pensou em ter uma parte nossa para aumentar sua parte social, mas não temos essa intenção. Hoje, as parcerias sustentam o Nacional".

Mais adiante, vamos explicar melhor como funcionam as parcerias. 

Antes, porém, é necessário contextualizar o que é o "condomínio próximo", citado pelo vice-presidente. 

Trata-se do Jardim das Perdizes, um bairro planejado considerado um dos mais modernos da capital paulista.

O luxuoso condomínio foi construído numa área de 244.000m², vendida pela Telefônica, em 2007, à construtora e incorporadora Tecnisa por R$ 135 milhões. 

Esse terreno era equivalente a mais de 30 campos como o do estádio do Morumbi, do São Paulo Futebol Clube.

Em uma pesquisa por sites de vendas de imóveis é possível ver uma variedade de apartamentos no Jardim das Perdizes à disposição para comprar. 

Nenhum abaixo de R$ 1 milhão. Uma unidade de mais de 200m², por exemplo, pode chegar a custar R$ 4 milhões.

Outras menores, entre 100 e 150m², aparecem com valores acima de R$ 2 milhões. 

E uma "pequena", de 80m², pode ser adquirida por pouco menos de R$ 1,5 milhão. 

Esses dados ajudam a explicar por quais motivos as construtoras têm tanto interesse no Nacional.

Segundo a corretora Janaína Oliveira, da Montreal Business, hoje o metro quadrado na região custa cerca de R$ 15 mil, variando de acordo com tamanho e andar do apartamento. 

Um condomínio previsto para ser entregue em junho de 2025, por exemplo, tem unidades de 136 m² a R$ 2 milhões.

De acordo com pesquisa da Loft no início do ano, o metro quadrado mais caro de São Paulo é o da Vila Nova Conceição (R$16.839,00), seguido pelo Jardim Europa (R$16.298,00).

Como o Nacional se mantém vivo?

Diferentemente de Palmeiras, Corinthians e São Paulo, o Nacional Atlético Clube não tem associados que pagam mensalidades. 

Os moradores da Barra Funda frequentam o clube para fazerem uso de atividades específicas nas quadras de futebol society, padel, beach tênis e outras modalidades.

O recurso, então, vem das parceiras que pagam para explorar esses espaços do Nacional.

É assim, por exemplo, com a escolinha de fut7 franqueada do Paris Saint-Germain e com a Santo Padel, frequentada pelo técnico Abel Ferreira, do Palmeiras. 

Popular na Europa, o esporte tem adeptos no Brasil (conheça mais sobre o Padel no vídeo abaixo).

Tradicional no passado, o complexo aquático está praticamente inutilizado, já que houve um natural desinteresse nos últimos anos pelo aumento das piscinas em prédios e condomínios.

Há planos para inauguração de uma academia no Nacional, da abertura de restaurantes, de novos bares e de um espaço para e-sports. 

Um dos projetos que a diretoria valoriza bastante é a Nacional Academy. 

Hoje, cerca de 150 alunos fazem aulas na escolinha do clube. 

Junto da agência 2SV, existe a ideia de enviar jogadores para atuarem com bolsas de estudos em universidades dos Estados Unidos.

Outro objetivo do clube é fazer da vizinhança a sua clientela. 

Por isso, foi criado um espaço chamado "Nacional Play", numa das entradas do clube que faz fundo ao Jardim das Perdizes. 

Com quadras, bares e lojas, a ideia é transformar o local numa praça de convívio para quem vive por ali.

Desde o ano passado, esse espaço recebe alguns eventos, como feiras de food truck, mas há a restrição de horário (até 22 horas), o que impede a realização de shows durante a noite, uma fonte de recurso muito comum em clubes como Portuguesa, no Canindé, e Juventus, na Mooca.

Outra fonte de recurso é o aluguel do estádio. 

Em abril, o ex-atacante Romário fez um jogo beneficente chamado "Joga pelos Raros" no Nicolau Alayon. 

O Globo Esporte apurou que foi pago R$ 20 mil pelo aluguel. 

A ideia agora é conseguir parceiros com empresas de tinta e iluminação para uma reforma geral.

Desde fevereiro, o estádio também tem recebido jogos do Super Rugby Américas. 

O Brasil é representado pela franquia dos Cobras, equipe gerenciada pela Confederação Brasileira de Rugby.

Entre áreas ainda abandonadas e outras revitalizadas, portanto, o Nacional tem progredido para ser uma opção de lazer na Zona Oeste da capital. 

Desde setembro, 40 caçambas com entulho foram retiradas de dentro do clube. 

O Naça, aos poucos, vai ganhando cores novamente.

Mas e o futebol?

Bicampeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior (1972 e 1988), o clube se orgulha de ter formado nomes como Félix, Deco, Cafu e Dodô para o futebol mundial. 

Ídolo do Sport, o ex-goleiro Magrão também foi revelado pelo clube. 

Mas, com pouca torcida e problemas financeiros, foi ficando à margem do futebol paulista até cair para a "Bezinha" em 2022.

Em 2023, o sonho é um só: retornar à Série A-3 do Paulistão. 

Até aqui, já foram duas rodadas: vitória fora de casa contra o Mauá por 1 a 0, e uma derrota para o Jabaquara, em casa, por 2 a 1. 

O próximo desafio é no domingo (7), às 19 horas (horário de Brasília), contra o ECUS. 

O jogo em casa, aliás, mostrou uma realidade que muitos times vivem na Bezinha: pagar para jogar.

Com 244 pagantes, a súmula apresentou uma renda bruta de R$ 3.460. 

Pelos descontos de seguro, imposto e taxas operacionais, com maior custo sendo os R$ 1.800 pagos para a presença de uma ambulância no estádio, o clube teve um prejuízo final de R$ 515,44.

Nos últimos anos, o futebol do Nacional esteve nas mãos de grupos de empresários. 

Agora, porém, é gerenciado pelo clube. 

O advogado Tato Jacopetti, em seu primeiro desafio como executivo de futebol, aposta no técnico Jailson Pita para a condução de uma equipe de baixo custo:

"Os salários aqui são entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil, não passa disso. Estamos bem pés no chão. Nós fomos claros para os jogadores: lugar de ganhar dinheiro não é o Nacional. Aqui é um trampolim para os jogadores conseguirem coisas maiores. É assim que vamos brigar, para conseguir honrar o mês até o fim do campeonato", disse Pita, que trabalha com cerca de 25 atletas.

A Federação Paulista de Futebol não confirma de forma oficial, mas o clube diz que recebe um repasse de só R$ 60 mil para jogar a segunda divisão paulista. 

Com muitas dívidas trabalhistas, o dinheiro que paga uma folha salarial chega aos cofres do Nacional penhorado.

Pela ameaça dos credores, aliás, o assunto dinheiro é tratado com bastante cuidado pelos novos executivos do clube. 

Desde setembro, além de Jacopetti no futebol, estão à frente do projeto Ruy Mendes Reis Júnior, CEO e vice-presidente, e o publicitário Ivan Mendes Reis, diretor de operações.

No dia em que a reportagem do Globo Esporte visitou o Nicolau Alayon, a equipe sub-23 fazia um jogo-treino contra o Flamengo de Guarulhos, outro time que joga a "Bezinha". 

O elenco foi formado após avaliações e com algumas poucas contratações, como o goleiro Maurício, que era do São José.

Hoje fora das principais divisões, o Nacional flertou com a A-1 do Paulistão há cinco anos, em 2018.

Naquela temporada, o clube havia firmado contrato de co-gestão com os empresários Fernando Garcia (Elenko Sports), Cesar Soler (CS Sports) e Raudinei Freire (Freire Intermediações). 

Na sociedade, o Nacional tinha 10% das receitas e, após o desconto, seriam 50% para Garcia e 25% para cada parte.

O volante Thiaguinho, por exemplo, foi vendido ao Corinthians naquele ano por R$ 2,5 milhões em quatro parcelas, a última prevista para julho de 2019. 

As partes todas brigam na Justiça até hoje, já que o clube alvinegro nunca fez o pagamento. 

O valor vem sofrendo correção desde então.

"Pra mim, foi uma experiência ruim. Só fiz isso para ajudar o Nacional e pela insistência do Raudinei Freire. Mas para todos nós, financeiramente, foi muito ruim. Não tivemos nada de retorno, só prejuízo", disse ao Globo Esporte o empresário Fernando Garcia, que esteve na parceria até 2019.

Em 2018, o Nacional ficou em quinto e, por um ponto, não foi às semifinais. 

Em 2019, já com a parceria encerrada, ficou na penúltima posição e caiu para a A-3. 

Em 2020, a eliminação foi nas quartas para o Noroeste. 

Em 2021, a queda foi para o Linense na semifinal, num ano em que o acesso era esperado.

Já em 2022, ano de uma parceria com empresários que deixou traumas e que é um assunto tabu por ali, a penúltima posição na A-3 empurrou o time para a quarta divisão. 

Paulo Tognazini, que ficou por 27 anos dentro do clube como técnico e dirigente, faz um resumo do que foram os últimos anos:

"O grande problema nos últimos anos foram investidores que começavam um projeto, mas não terminavam. O investidor entra pensando no bolso dele. Tem que ter amor pelo clube. O cara investe, faz uma estrutura, mas geralmente some, não paga e fica aquele rombo. Aí, quem assume tem que pegar tudo o que ficou para trás. Hoje o clube é tocado com recursos próprios", disse.

Para 2024, a Federação Paulista deve criar uma nova quarta divisão, a A-4, que contará com os 14 melhores classificados na Segundona deste ano, além dos dois rebaixados da A-3. 

Os outros times seguirão na Bezinha, que vai se tornar o quinto nível. 

Por isso, avançar de fase é fundamental:

"O desafio é muito grande. Hoje nossa realidade é essa. Quando fui anunciado treinador, me mobilizei com os amigos para tentar montar um time. Escolhi a dedo jogadores com caráter, acima de tudo isso, e com nível de futebol elevado. O Nacional é uma vitrine boa. Montamos um time competitivo, agora é ver nas competições se vamos encaixar. O primeiro objetivo é nos manter entre os 16 para pelo menos ficar nesta A-4. O segundo objetivo é o acesso", disse o técnico Jaílson Pita.

O berço do futebol: O Nacional está diretamente ligado às origens do futebol no Brasil. 

O clube foi fundado por ingleses da São Paulo Railway, companhia ferroviária que tinha como seu funcionário mais ilustre Charles Miller, o "pai do futebol" no país. 

Foi ele quem organizou o primeiro jogo no Brasil, entre os funcionários da Cia de Gás e da Cia Ferroviária. 

O time da SPR (São Paulo Railway) daria origem ao Nacional, que ganhou esse nome em 1947.

Desde sempre, o clube tem as ferrovias como marca. Seu estatuto, por exemplo, exige que os membros da diretoria sejam ferroviários. 

Por isso a longevidade do presidente Ayrton Franco Santiago, de 81 anos, e do vice Edison Gallo, de 77, uma dupla que está há cerca de 50 anos à frente do clube.

"O estatuto que ainda vigora obriga que o presidente e os vices sejam ferroviários aposentados. Temos uma área enorme, de 80 mil metros, que nos foi passada pela União quando a rede ferroviária foi extinta. Estamos desde 1970 e há uma dificuldade para fazer a sucessão no clube, que tem cerca de 90 conselheiros. Agora trouxemos gente nova para dar uma nova visão ao Nacional", disse Gallo, que é advogado aposentado da Rede Ferroviária Federal.

Entre tantos percalços, o Nacional segue vivo onde nasceu, encarando de frente a realidade vitoriosa dos seus vizinhos, seja dos gigantes Palmeiras e São Paulo ou dos moradores do Jardim das Perdizes.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

 

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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