Como time da quarta divisão sobrevive em uma das áreas mais caras de São Paulo.
Vizinho de luxuoso empreendimento da capital, Naça tenta renascer enfrentando penhoras e assédio de construtoras do outro lado da avenida onde estão os Centro de Treinamento de Palmeiras e São Paulo.
Localizada na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo, a Avenida Marquês de São Vicente divide mundos opostos.
De um lado, os Centro de Treinamentos de São Paulo e Palmeiras, gigantes do futebol brasileiro.
Do outro, ocupando uma área de 80.000m², está o Nacional, um clube centenário e tradicional que hoje agoniza na quarta divisão do estado lutando contra dívidas e sob o assédio de construtoras.
Embora o estádio Nicolau Alayon seja tombado como patrimônio histórico e cultural da capital paulista, o restante do terreno onde funciona o Naça não é.
E aí entram as sondagens de grupos imobiliários que frequentemente tentam convencer os dirigentes a vender parte da propriedade.
Algo que não está nos planos do clube, como diz o vice-presidente Edison Gallo, de 77 anos:
"Já tentaram comprar aqui, sempre teve muita especulação. O próprio condomínio próximo tentou. Tivemos notícias também de que o Palmeiras já pensou em ter uma parte nossa para aumentar sua parte social, mas não temos essa intenção. Hoje, as parcerias sustentam o Nacional".
Mais adiante, vamos explicar melhor como funcionam as parcerias.
Antes, porém, é necessário contextualizar o que é o "condomínio próximo", citado pelo vice-presidente.
Trata-se do Jardim das Perdizes, um bairro planejado considerado um dos mais modernos da capital paulista.
O luxuoso condomínio foi construído numa área de 244.000m², vendida pela Telefônica, em 2007, à construtora e incorporadora Tecnisa por R$ 135 milhões.
Esse terreno era equivalente a mais de 30 campos como o do estádio do Morumbi, do São Paulo Futebol Clube.
Em uma pesquisa por sites de vendas de imóveis é possível ver uma variedade de apartamentos no Jardim das Perdizes à disposição para comprar.
Nenhum abaixo de R$ 1 milhão. Uma unidade de mais de 200m², por exemplo, pode chegar a custar R$ 4 milhões.
Outras menores, entre 100 e 150m², aparecem com valores acima de R$ 2 milhões.
E uma "pequena", de 80m², pode ser adquirida por pouco menos de R$ 1,5 milhão.
Esses dados ajudam a explicar por quais motivos as construtoras têm tanto interesse no Nacional.
Segundo a corretora Janaína Oliveira, da Montreal Business, hoje o metro quadrado na região custa cerca de R$ 15 mil, variando de acordo com tamanho e andar do apartamento.
Um condomínio previsto para ser entregue em junho de 2025, por exemplo, tem unidades de 136 m² a R$ 2 milhões.
De acordo com pesquisa da Loft no início do ano, o metro quadrado mais caro de São Paulo é o da Vila Nova Conceição (R$16.839,00), seguido pelo Jardim Europa (R$16.298,00).
Como o Nacional se mantém vivo?
Diferentemente de Palmeiras, Corinthians e São Paulo, o Nacional Atlético Clube não tem associados que pagam mensalidades.
Os moradores da Barra Funda frequentam o clube para fazerem uso de atividades específicas nas quadras de futebol society, padel, beach tênis e outras modalidades.
O recurso, então, vem das parceiras que pagam para explorar esses espaços do Nacional.
É assim, por exemplo, com a escolinha de fut7 franqueada do Paris Saint-Germain e com a Santo Padel, frequentada pelo técnico Abel Ferreira, do Palmeiras.
Popular na Europa, o esporte tem adeptos no Brasil (conheça mais sobre o Padel no vídeo abaixo).
Tradicional no passado, o complexo aquático está praticamente inutilizado, já que houve um natural desinteresse nos últimos anos pelo aumento das piscinas em prédios e condomínios.
Há planos para inauguração de uma academia no Nacional, da abertura de restaurantes, de novos bares e de um espaço para e-sports.
Um dos projetos que a diretoria valoriza bastante é a Nacional Academy.
Hoje, cerca de 150 alunos fazem aulas na escolinha do clube.
Junto da agência 2SV, existe a ideia de enviar jogadores para atuarem com bolsas de estudos em universidades dos Estados Unidos.
Outro objetivo do clube é fazer da vizinhança a sua clientela.
Por isso, foi criado um espaço chamado "Nacional Play", numa das entradas do clube que faz fundo ao Jardim das Perdizes.
Com quadras, bares e lojas, a ideia é transformar o local numa praça de convívio para quem vive por ali.
Desde o ano passado, esse espaço recebe alguns eventos, como feiras de food truck, mas há a restrição de horário (até 22 horas), o que impede a realização de shows durante a noite, uma fonte de recurso muito comum em clubes como Portuguesa, no Canindé, e Juventus, na Mooca.
Outra fonte de recurso é o aluguel do estádio.
Em abril, o ex-atacante Romário fez um jogo beneficente chamado "Joga pelos Raros" no Nicolau Alayon.
O Globo Esporte apurou que foi pago R$ 20 mil pelo aluguel.
A ideia agora é conseguir parceiros com empresas de tinta e iluminação para uma reforma geral.
Desde fevereiro, o estádio também tem recebido jogos do Super Rugby Américas.
O Brasil é representado pela franquia dos Cobras, equipe gerenciada pela Confederação Brasileira de Rugby.
Entre áreas ainda abandonadas e outras revitalizadas, portanto, o Nacional tem progredido para ser uma opção de lazer na Zona Oeste da capital.
Desde setembro, 40 caçambas com entulho foram retiradas de dentro do clube.
O Naça, aos poucos, vai ganhando cores novamente.
Mas e o futebol?
Bicampeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior (1972 e 1988), o clube se orgulha de ter formado nomes como Félix, Deco, Cafu e Dodô para o futebol mundial.
Ídolo do Sport, o ex-goleiro Magrão também foi revelado pelo clube.
Mas, com pouca torcida e problemas financeiros, foi ficando à margem do futebol paulista até cair para a "Bezinha" em 2022.
Em 2023, o sonho é um só: retornar à Série A-3 do Paulistão.
Até aqui, já foram duas rodadas: vitória fora de casa contra o Mauá por 1 a 0, e uma derrota para o Jabaquara, em casa, por 2 a 1.
O próximo desafio é no domingo (7), às 19 horas (horário de Brasília), contra o ECUS.
O jogo em casa, aliás, mostrou uma realidade que muitos times vivem na Bezinha: pagar para jogar.
Com 244 pagantes, a súmula apresentou uma renda bruta de R$ 3.460.
Pelos descontos de seguro, imposto e taxas operacionais, com maior custo sendo os R$ 1.800 pagos para a presença de uma ambulância no estádio, o clube teve um prejuízo final de R$ 515,44.
Nos últimos anos, o futebol do Nacional esteve nas mãos de grupos de empresários.
Agora, porém, é gerenciado pelo clube.
O advogado Tato Jacopetti, em seu primeiro desafio como executivo de futebol, aposta no técnico Jailson Pita para a condução de uma equipe de baixo custo:
"Os salários aqui são entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil, não passa disso. Estamos bem pés no chão. Nós fomos claros para os jogadores: lugar de ganhar dinheiro não é o Nacional. Aqui é um trampolim para os jogadores conseguirem coisas maiores. É assim que vamos brigar, para conseguir honrar o mês até o fim do campeonato", disse Pita, que trabalha com cerca de 25 atletas.
A Federação Paulista de Futebol não confirma de forma oficial, mas o clube diz que recebe um repasse de só R$ 60 mil para jogar a segunda divisão paulista.
Com muitas dívidas trabalhistas, o dinheiro que paga uma folha salarial chega aos cofres do Nacional penhorado.
Pela ameaça dos credores, aliás, o assunto dinheiro é tratado com bastante cuidado pelos novos executivos do clube.
Desde setembro, além de Jacopetti no futebol, estão à frente do projeto Ruy Mendes Reis Júnior, CEO e vice-presidente, e o publicitário Ivan Mendes Reis, diretor de operações.
No dia em que a reportagem do Globo Esporte visitou o Nicolau Alayon, a equipe sub-23 fazia um jogo-treino contra o Flamengo de Guarulhos, outro time que joga a "Bezinha".
O elenco foi formado após avaliações e com algumas poucas contratações, como o goleiro Maurício, que era do São José.
Hoje fora das principais divisões, o Nacional flertou com a A-1 do Paulistão há cinco anos, em 2018.
Naquela temporada, o clube havia firmado contrato de co-gestão com os empresários Fernando Garcia (Elenko Sports), Cesar Soler (CS Sports) e Raudinei Freire (Freire Intermediações).
Na sociedade, o Nacional tinha 10% das receitas e, após o desconto, seriam 50% para Garcia e 25% para cada parte.
O volante Thiaguinho, por exemplo, foi vendido ao Corinthians naquele ano por R$ 2,5 milhões em quatro parcelas, a última prevista para julho de 2019.
As partes todas brigam na Justiça até hoje, já que o clube alvinegro nunca fez o pagamento.
O valor vem sofrendo correção desde então.
"Pra mim, foi uma experiência ruim. Só fiz isso para ajudar o Nacional e pela insistência do Raudinei Freire. Mas para todos nós, financeiramente, foi muito ruim. Não tivemos nada de retorno, só prejuízo", disse ao Globo Esporte o empresário Fernando Garcia, que esteve na parceria até 2019.
Em 2018, o Nacional ficou em quinto e, por um ponto, não foi às semifinais.
Em 2019, já com a parceria encerrada, ficou na penúltima posição e caiu para a A-3.
Em 2020, a eliminação foi nas quartas para o Noroeste.
Em 2021, a queda foi para o Linense na semifinal, num ano em que o acesso era esperado.
Já em 2022, ano de uma parceria com empresários que deixou traumas e que é um assunto tabu por ali, a penúltima posição na A-3 empurrou o time para a quarta divisão.
Paulo Tognazini, que ficou por 27 anos dentro do clube como técnico e dirigente, faz um resumo do que foram os últimos anos:
"O grande problema nos últimos anos foram investidores que começavam um projeto, mas não terminavam. O investidor entra pensando no bolso dele. Tem que ter amor pelo clube. O cara investe, faz uma estrutura, mas geralmente some, não paga e fica aquele rombo. Aí, quem assume tem que pegar tudo o que ficou para trás. Hoje o clube é tocado com recursos próprios", disse.
Para 2024, a Federação Paulista deve criar uma nova quarta divisão, a A-4, que contará com os 14 melhores classificados na Segundona deste ano, além dos dois rebaixados da A-3.
Os outros times seguirão na Bezinha, que vai se tornar o quinto nível.
Por isso, avançar de fase é fundamental:
"O desafio é muito grande. Hoje nossa realidade é essa. Quando fui anunciado treinador, me mobilizei com os amigos para tentar montar um time. Escolhi a dedo jogadores com caráter, acima de tudo isso, e com nível de futebol elevado. O Nacional é uma vitrine boa. Montamos um time competitivo, agora é ver nas competições se vamos encaixar. O primeiro objetivo é nos manter entre os 16 para pelo menos ficar nesta A-4. O segundo objetivo é o acesso", disse o técnico Jaílson Pita.
O berço do futebol: O Nacional está diretamente ligado às origens do futebol no Brasil.
O clube foi fundado por ingleses da São Paulo Railway, companhia ferroviária que tinha como seu funcionário mais ilustre Charles Miller, o "pai do futebol" no país.
Foi ele quem organizou o primeiro jogo no Brasil, entre os funcionários da Cia de Gás e da Cia Ferroviária.
O time da SPR (São Paulo Railway) daria origem ao Nacional, que ganhou esse nome em 1947.
Desde sempre, o clube tem as ferrovias como marca. Seu estatuto, por exemplo, exige que os membros da diretoria sejam ferroviários.
Por isso a longevidade do presidente Ayrton Franco Santiago, de 81 anos, e do vice Edison Gallo, de 77, uma dupla que está há cerca de 50 anos à frente do clube.
"O estatuto que ainda vigora obriga que o presidente e os vices sejam ferroviários aposentados. Temos uma área enorme, de 80 mil metros, que nos foi passada pela União quando a rede ferroviária foi extinta. Estamos desde 1970 e há uma dificuldade para fazer a sucessão no clube, que tem cerca de 90 conselheiros. Agora trouxemos gente nova para dar uma nova visão ao Nacional", disse Gallo, que é advogado aposentado da Rede Ferroviária Federal.
Entre tantos percalços, o Nacional segue vivo onde nasceu, encarando de frente a realidade vitoriosa dos seus vizinhos, seja dos gigantes Palmeiras e São Paulo ou dos moradores do Jardim das Perdizes.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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