domingo, 18 de dezembro de 2022

Dor e recorde

Protagonista até na derrota, Mbappé se torna um dos maiores da história da Copa do Mundo.

Aos 23 anos, camisa 10 francês iguala lendas em final no Catar, mas sofre dolorosa lição da Argentina.

Como se estivesse numa corrida de 100 metros, Mbappé agachou-se, posicionou uma das pernas para trás e deixou o outro pé encostado na linha de meio de campo do Estádio Lusail, aguardando o apito do árbitro para largar em disparada.

A França deu a saída na final da Copa do Mundo contra a Argentina e, de imediato, buscou seu craque com um lançamento para a ponta esquerda. 

Se havia um caminho para ganhar o tricampeonato mundial, ele passava pelos pés do camisa 10.

Porém, assim como no primeiro lance do jogo, no qual Mbappé não conseguiu dominar e deixou a bola sair pela linha lateral, os 85 minutos seguintes não andaram bem para ele e a seleção. 

A primeira finalização francesa saiu aos 22 minutos do segundo tempo. 

A do atacante, aos 30 minutos do segundo tempo.

Mas tempo nunca foi problema para Mbappé, que ganhou sua primeira Copa do Mundo com apenas 18 anos e, aos 23 anos, saboreia o amargo gosto do vice. 

Em apenas 94 segundos, ele marcou duas vezes diante da Argentina, recolocou a França no jogo e transformou o duelo em Doha numa das maiores finais da história.

Até aquele momento, Mbappé não era o protagonista que se esperava, nem mesmo um mero coadjuvante. 

Fazia figuração na ponta esquerda do ataque, sendo pouco acionado graças à forte marcação feita pela Argentina, que deslocou De Paul para dar suporte a Molina por aquele setor.

O camisa 7 adversário, aliás, tentou tirar o craque francês do sério no começo do jogo, durante atendimento médico ao goleiro Lloris. 

Com leves toques no peito, foi empurrando o atacante para trás, mas o máximo que conseguiu arrumar foi uma cara feia dele.

Percebendo que o jogo da sua equipe não fluía, o técnico Didier Deschamps fez duas mudanças ainda no primeiro tempo e deslocou Mbappé para o centro do ataque. 

Também não funcionou e, logo nos minutos iniciais da etapa final, o camisa 10 voltou para seu habitat natural.

Foi dali que o craque iniciou a revolução francesa na final, com dois gols em menos de dois minutos. 

O primeiro, de pênalti, o colocou na lista dos poucos jogadores que conseguiram marcar em duas decisões de Mundial, ao lado de Vavá, Pelé, Breitner e Zidane.

O segundo, uma pintura, em chute de primeira, na entrada da área, o fez assumir a artilharia da Copa do Mundo do Catar. 

Já era enorme, mas ainda havia muita história a escrever...

Mbappé assumiu seu papel de protagonista e passou a infernizar a defesa argentina, com dribles e arrancadas.

Na prorrogação, de novo de pênalti, alcançou outras marcas que vice-campeonato nenhum consegue apagar. 

Chegou a 12 gols em Copas do Mundo, mesmo número que tem Pelé, e se tornou o segundo a fazer um hat-trick numa decisão, algo que só o inglês Geoff Hurst havia conseguido, em 1966. 

Também se isolou como maior goleador em finais de Copa do Mundo.

Com a personalidade que mais parece a de um veterano, o atacante abriu a disputa de pênaltis e, mais uma vez, converteu sua cobrança.

No entanto, justamente em um dos maiores momentos de sua ainda curta carreira, Mbappé recebeu a dura lição de que a qualidade e a resiliência do futebol sul-americano não se subestimam. 

Na final deste domingo (18), o francês teve a comprovação de que sua tese, de que as seleções europeias estão em um nível acima das demais, não está correta.

Ainda novo, Mbappé tem muito tempo para aprender. 

E para seguir escrevendo novos capítulos na história das Copas, da qual ele já faz parte como um dos maiores.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

 

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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