sexta-feira, 11 de julho de 2025

Futebol e saúde

Conheça a cidade no meio do nada que usou time na luta contra a depressão.

Com população que cabe dentro de estádio, Itacuruba já teve número de suicídios 6 vezes maior do que a média nacional, mas fez história há 20 anos ao vencer Trio de Ferro do Recife.

"Ninguém passa por Itacuruba. É preciso querer ir lá". 

A frase costumeiramente dita pelos moradores, faz referência à menor cidade de Pernambuco, com população de apenas 4.284 moradores segundo o Censo de 2022.

Um município a cerca de 500 quilômetros do Recife, localizado no Sertão do São Francisco, ponto final da PE-422, e a 11 quilômetros da BR mais próxima. 

E que no início dos anos 2000, "entrou" no mapa do estado por conta de um time de futebol. 

Levando alegria a uma cidade marcada na época pela depressão.

O Itacuruba Sport Club disputou o Campeonato Pernambucano por três temporadas consecutivas, a última delas há 20 anos. 

Com direito a terminar na quarta colocação em 2004, atrás apenas do trio de ferro formado por Sport, Santa Cruz e Náutico. 

Saiu de cena em 2005, sem nunca ter sido rebaixado em campo, nesse ano, foi quinto colocado.

2 anos depois, um levantamento do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe) indicou que 63% dos moradores da cidade sofriam de depressão, e que o número de suicídios era 6 vezes maior que a média nacional. 

O Globo ESporte entrou em contato com o órgão, que informou não ter esses dados atualizados.

O contexto histórico da cidade contribuiu para esse cenário. 

E é dividido em dois momentos: a “velha” e a “nova” Itacuruba. 

A mais antiga, situada às margens do Rio São Francisco, deixou de existir com a construção da barragem de Itaparica, pela Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), em 1988. Toda a cidade foi inundada.

Em 2016, um fotógrafo localizou e registrou as ruínas do centro histórico da cidade, submersas no São Francisco. 

Com a construção da barragem, os moradores da antiga cidade foram “realocados” na nova e atual Itacuruba.

E a população, que chegou a ser de 15 mil moradores, hoje é de 4.284 pessoas, de acordo com o último Censo. 

Menor que a capacidade do estádio Gaudenção, onde cabem 5 mil torcedores. 

Já a frota do município é de apenas 947 veículos. Para se ter uma ideia, a Arena de Pernambuco possui 4.700 vagas de estacionamento.

"O time do Itacuruba ajudou muito a deixar a cidade mais alegre. Idosos, jovens, todo mundo acompanhava o time. Inclusive durante os treinos da semana ia muita gente para o estádio. O Itacuruba trouxe muita coisa boa pra cá. Deixou a cidade conhecida", diz o aposentado "Lula" Gonzaga, de 66 anos, uma espécie de torcedor símbolo do Itacuruba Sport Club.

"Ia para praticamente todos os jogos. Dentro e fora de casa. Até no Recife", assegura.

Sentimento compartilhado pelo mecânico Raueni Torres, 40 anos, nascido na antiga Itacuruba e criado no novo local escolhido para acolher o município sertanejo.

"Muita gente da velha Itacuruba foi para outros lugares. E os que ficaram receberam suas indenizações, mas ficaram sem emprego. Em casa, sem trabalhar, acabaram com depressão, sem ocupar a mente", afirma outro itacurubense saudoso dos dias em que um time de futebol representava a cidade.

"Na época do time a cidade era bem mais animada, hoje voltamos à estaca zero. O futebol faz muita falta. Os jogos chamavam muita gente, inclusive de fora. E tínhamos um time muito bom e que repercutiu na região", recorda.

Nos três anos em que esteve na elite do futebol pernambucano, o Itacuruba enfrentou Sport, Santa Cruz e Náutico no Gaudenção. E venceu os três.

Foi o Leão o que mais sofreu fora de casa contra os sertanejos, com três derrotas (4 a 2, 3 a 1 e 2 a 0). 

Jogos que, duas décadas depois, não saem da memória dos moradores do município. 

Nem dos que fizeram parte daquele Itacuruba.

Ex-jogador do Flamengo campeão da Taça Libertadores da América e do Mundial de Clubes em 1981 e do Campeonato Brasileiro em 1982 "na reserva de Zico e Nunes", Peu Santos foi o treinador do Itacuruba nos 3 anos em que o clube disputou a elite do Campeonato Pernambucano. 

E guarda com carinho esse tempo.

"Tenho certeza de que o time colocou Itacuruba no mapa do estado. Muitos pernambucanos nunca haviam ouvido falar na cidade. Você viu alguma placa ao longo da estrada indicando a localização de Itacuruba? A única que existe é a da entrada da cidade", afirma.

"Toda a cidade era envolvida com o time. As torcedoras organizavam todo dia e mandavam para a concentração um bolinho para ser o lanche dos jogadores à noite. Outros torcedores doavam bodes, ovelhas para servir no almoço. Ainda hoje tenho contato com os moradores de lá e com os jogadores da época", completa.

Além de boas campanhas, o Itacuruba também fez o artilheiro do Campeonato Pernambucano de 2004, o atacante Kelson, com 14 gols. 

Deixando para trás nomes como Kuki (ídolo do Náutico), Iranildo (ex-Flamengo e que era o principal jogador do Santa Cruz) e Nildo (meia que atuava no Sport, com passagens também por Fluminense e São Paulo).

"Todo mundo parava para ir aos jogos. Era a maior coisa que tinha na cidade. Era uma festa, mas infelizmente acabou. Até hoje, quando vou a Recife, as pessoas me perguntam sobre o Itacuruba", conta Kelson, que atualmente mora em Campina Grande, na Paraíba.

"Fiz gols contra o Santa Cruz, o Náutico, mas os mais marcantes foram contra o Sport. Até porque foram na cidade. Passei por outros clubes, mas o Itacuruba é especial para mim. Ainda hoje falo com os jogadores daquela época. Temos um grupo no Whatsapp", diz o ex-atacante, que após ser artilheiro do Pernambucano foi contratado pelo Santa Cruz, tendo defendido ainda o Criciúma, em 2007.

Futuro: No dia em que a reportagem do Globo Esporte esteve na cidade, o estádio Gaudênção passava por reparos, tintura das arquibancadas e corte do gramado. 

Mas não há perspectivas, no momento, por um retorno do Itacuruba Sport Club. 

Apesar de o atual prefeito da cidade, Juninho Cantarelli, ser um dos fundadores do clube, criado em 1987, antes do reassentamento da população -, e ter sido o presidente entre 2003 e 2005.

"Se a gente não para, acredito que chegaríamos à Primeira Divisão do Brasileiro", afirmou.

A única competição nacional da história do Itacuruba foi a Série C de 2004, quando foi eliminado na segunda fase pelo Treze-PB.

"O Itacuruba, na época, teve uma dificuldade financeira. Não para pagar seus jogadores, mas a gente precisava da ajuda da prefeitura para outros custos e não tivemos isso. Ai resolvi tirar o clube e fui morar em Recife. Hoje o clube segue federado, mas está licenciado. Ele não está extinto", explica o atual prefeito, que apesar da ligação com o time não projeta, nesse momento, um retorno.

"Futebol hoje está muito caro. E a experiência que eu passei, mesmo sendo bem colocado, foi muito difícil. Mas quem sabe um dia não pode acontecer (o retorno)? Eu não descarto. Vamos começar a fazer um trabalho novo aqui com os jovens e quem sabe uma hora a gente consiga trazer de volta", acrescenta, sem muita convicção.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

 

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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