O caminho espanhol do Ajax para reencontrar sua identidade.
Após terminar a última temporada 28 pontos atrás do PSV Einhdoven e completar 4 anos sem conquistar a liga holandesa, o Ajax aposta em um treinador espanhol para atualizar ideias que o próprio clube ajudou a exportar.N Sports + NWB formam a única plataforma do Brasil com a união entre transmissão ao vivo, conteúdo e entretenimento esportivo em um ecossistema 100% integrado.
Há clubes que podem trocar de treinador, elenco e modelo de jogo sem provocar uma crise de identidade.
Com o Ajax é diferente.
Em Amsterdã, ganhar importa, mas a maneira de ganhar também.
A equipe precisa controlar a bola, ocupar o campo adversário, pressionar depois da perda e abrir espaço para os jovens formados em De Toekomst, centro de treinamento situado no sudeste de Amsterdã e a poucos minutos da Johan Cruijff Arena.
Quando essas características desaparecem, a sensação não é apenas de que o time está jogando mal.
É como se o Ajax deixasse de reconhecer a si mesmo.
Foi assim nos últimos anos.
Nem mesmo o vice-campeonato de 2024/2025, sob o comando do italiano Francesco Farioli, hoje no Porto, foi suficiente para devolver o entusiasmo à torcida.
Na temporada seguinte, o Ajax terminou na quinta colocação, 28 pontos atrás do PSV Eindhoven, e completou 4 anos sem conquistar a Eredivisie.
Foi nesse contexto que Míchel Sánchez assinou contrato até junho de 2028.
A busca não era somente por um treinador capaz de recuperar resultados, mas por alguém cuja ideia de futebol combinasse novamente com a história da instituição.
Uma viagem de ida e volta: Antes de Míchel, outro nome carregado de simbolismo havia chegado: Jordi Cruijff assumiu o comando do futebol do clube.
Filho de Johan e nascido em Barcelona durante a passagem do pai pela Catalunha, Jordi personifica a conexão entre as escolas holandesa e espanhola.
A contratação de Míchel reforçou essa ponte.
Em sua apresentação, o treinador falou sobre futebol ofensivo, desenvolvimento de jovens e continuidade da filosofia do Ajax.
Durante a pré-temporada, descreveu uma equipe que deve tomar a iniciativa, jogar no campo adversário e pressionar com intensidade.
A escolha cria uma viagem histórica de ida e volta.
Johan Cruijff levou ao Barcelona princípios desenvolvidos no futebol holandês e ajudou a transformar a maneira como a Espanha enxergava o jogo.
Sua influência atravessou gerações, alterou categorias de base e consolidou a posse de bola como ferramenta de controle e ataque.
Agora, o Ajax procura na escola espanhola uma versão atualizada de conceitos que o próprio clube ajudou a espalhar pela Europa.
Míchel conhece essa relação de forma pessoal.
Sua primeira partida como jogador profissional foi contra o Barcelona de Cruijff.
Ao chegar a Amsterdã, afirmou que a filosofia do holandês provocou uma grande transformação no futebol espanhol e que Cruijff continua sendo uma referência em sua carreira.
Isso não significa reproduzir literalmente as equipes do passado.
O jogo mudou, a pressão tornou-se mais organizada e as transições ficaram mais velozes.
Recuperar uma identidade não é construir um museu tático, mas adaptar princípios históricos às exigências atuais.
A força recente dos treinadores espanhóis ajuda a contextualizar a escolha.
Luis Enrique conduziu o Paris Saint-Germain ao bicampeonato consecutivo da Champions League.
Unai Emery levou o Aston Villa ao título da Europa League, enquanto Luis de la Fuente comandou a Espanha na conquista da Copa do Mundo.
São trabalhos com características diferentes, mas que demonstram a capacidade da escola espanhola de interpretar e atualizar o futebol contemporâneo.
Identidade como critério: A mudança de treinador veio acompanhada de uma reformulação profunda. Sob a direção de Jordi Cruijff, o Ajax trouxe 11 jogadores na janela de verão.
Entre eles estão os brasileiros Caio Henrique, lateral-esquerdo de característica ofensiva contratado do Monaco, e Marcos Leonardo, atacante revelado pelo Santos e adquirido junto ao Al-Hilal.
A montagem do elenco buscou equilibrar jovens talentos com atletas experientes, capazes de suportar a pressão e orientar um grupo em formação.
Jordi explicou que os reforços precisavam servir simultaneamente ao modelo do treinador e à filosofia do clube.
Esse talvez seja o ponto mais importante do projeto.
Nos últimos anos, o Ajax sofreu com a falta de continuidade entre direção, comissão técnica, recrutamento e formação.
Agora, o clube tenta transformar sua identidade em critério de decisão: o treinador precisa propor o jogo, os reforços devem ser compatíveis com esse modelo e os jovens precisam enxergar um caminho até a equipe principal.
Essa coerência também possui valor comercial.
O Ajax alcançou relevância internacional superior ao tamanho do mercado holandês porque representa algo reconhecível.
O uniforme, a academia, o estádio que leva o nome de Johan Cruijff e a expectativa por um futebol ofensivo compõem uma narrativa compreendida até por quem não acompanha semanalmente a Eredivisie.
Uma marca esportiva, porém, não sobrevive apenas da memória.
Ela precisa ser reafirmada dentro de campo.
Quando a equipe joga de maneira incompatível com aquilo que o clube comunica, surge uma distância entre a promessa institucional e a experiência do torcedor.
O sobrenome Cruijff não serve como escudo contra críticas, assim como o passaporte espanhol de Míchel não garante títulos.
O que existe é uma lógica de projeto: uma direção que conhece o peso histórico do clube, um treinador identificado com seus princípios e um elenco remontado para executar essa proposta.
A Copa da Holanda como termômetro: O público brasileiro poderá acompanhar parte dessa reconstrução também pela Copa da Holanda.
A N Sports possui os direitos de 16 partidas da edição 2026/2027, competição que reúne clubes de diferentes divisões e preserva uma das tradições do calendário holandês.
Para o Ajax, o mata-mata será mais do que uma oportunidade de título.
Será um termômetro do projeto.
Partidas eliminatórias reduzem a margem de erro e testam a capacidade de uma equipe preservar suas convicções quando o cenário deixa de ser confortável.
Ainda é cedo para saber se a aposta funcionará.
Recuperar quatro anos de terreno perdido exige mais do que uma boa janela e uma ideia atraente.
Mas o Ajax parece ter entendido que, antes de voltar a ser campeão, precisava voltar a ser reconhecível.
E talvez esteja aí a grande ironia do novo projeto: para reencontrar um caminho nascido em Amsterdã, o Ajax foi buscar na Espanha alguém que aprendeu a enxergar o futebol pelas ideias de um holandês.
*César Augusto é jornalista esportivo e correspondente internacional baseado em Amsterdã. Atua na cobertura do futebol europeu, com atenção especial ao futebol holandês, aos grandes eventos e às histórias que conectam esporte, cultura e sociedade. Como freelancer, produz reportagens, transmissões e conteúdo digital diretamente da Europa para o público brasileiro.
Reportagem: Mktesportivo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro






