Estrutura atual do Campeonato Brasileiro estafa clubes da elite e prejudica a viabilidade das divisões de acesso.
Passadas pouco mais de 10 rodadas, essa edição do Campeonato Brasileiro parece se encaminhar para mais uma média baixa de pontos entre os times da zona de rebaixamento.
Remo, Chapecoense e Mirassol somam apenas 1 vitória em suas primeiras 10 partidas, o que sugere que a tendência recente de times colecionando péssimas campanhas na parte de baixo da tabela parece se repetir esse ano.
Por óbvio, ainda é muito cedo para fazer qualquer afirmação definitiva sobre o assunto, mas esse é um tema que precisa ser acompanhado esse ano, dadas as recentes mudanças feitas no calendário do futebol brasileiro por parte da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
O ano de 2026, nesse sentido, contou com um calendário reformulado, com as principais equipes do país começando sua corrida pelo título da maior competição nacional ainda sem que os estaduais estivessem decididos, o que poderia mudar as recentes dinâmicas da elite do futebol nacional.
Eu já havia defendido, no passado, que as principais divisões nacionais ocorressem em paralelo aos campeonatos estaduais, então boa parte das tentativas de melhoria do calendário me agradou.
Ainda assim, me parece claro que ainda existe bastante a ser melhorado para os próximos anos, e os resultados do primeiro trimestre reforçam essa minha impressão.
Isso porque uma das principais raízes dos problemas de agenda do futebol brasileiro continua a ser ignorada: não existe justificativa razoável para que as diferentes divisões nacionais tenham, todas, vinte clubes.
Para as divisões inferiores, vinte é pouco (ou muito pouco); para a elite, vinte é demais.
Em 2025, a elite nacional completou duas décadas com 20 clubes.
É importante, então, entender o que revelam algumas tendências observadas ao longo desses vinte anos para avaliar se, de fato, o tamanho adotado para a competição a partir de 2006 continua fazendo sentido para a realidade atual.
E essas tendências não poderiam ser mais claras: antes tido como uma das competições mais equilibradas do futebol mundial, o Campeonato Brasileiro é hoje uma liga absolutamente desequilibrada.
Nesse sentido, uma das métricas que acompanho ano a ano é a média de pontos dos times do G4 dividida pela média de pontos dos times do Z4.
Em uma liga perfeitamente equilibrada, em que todos os clubes terminassem com a mesma pontuação, o resultado da divisão seria 1.
Como, naturalmente, as equipes do G4 fazem campanhas melhores do que as do Z4, a métrica apresenta sempre resultados superiores a 1, quanto maior esse número, mais desigual é a relação entre o topo e a base da elite nacional.
Tendo como base essa métrica, a primeira década do Campeonato Brasileiro por pontos corridos se mostrou bastante equilibrada, com os clubes da parte de baixo da tabela conquistando ao menos metade dos pontos das equipes do topo.
A partir de 2012, no entanto, o cenário começou a mudar e, nas últimas oito edições, as equipes do G4 fizeram ao menos o dobro de pontos dos clubes rebaixados.
Em 2019, quando o Flamengo foi campeão com 90 pontos e o Ceará, com menos de 40, se salvou do rebaixamento, a métrica chegou a bater 2,5.
De forma semelhante, acho interessante avaliar, ano a ano, a média dos dois últimos colocados da primeira divisão.
Como defendo que o Campeonato Brasileiro deveria ter 18 equipes, essa métrica representa justamente a relevância das equipes que estão “sobrando”.
De 2006 até 2015, representando as dez primeiras edições no formato e tamanho atuais, os 2 últimos colocados apresentaram uma média inferior a 30 pontos em somente duas edições.
De lá para cá, também em um total de dez edições, as duas piores equipes não chegaram a uma média de 30 pontos em sete edições, com a última temporada apresentando o pior resultado da história.
A campanha do Sport em 2025, nesse sentido, não representa um ponto fora da curva; pelo contrário, é mais um exemplo de uma tendência que se acentuou ao longo da última década, com as principais equipes do país performando muito acima das equipes da parte de baixo da tabela.
Os dados são bastante claros ao mostrar que existem equipes sobrando na elite do futebol nacional.
Ainda assim, mais do que uma conclusão com base no que os dados mostram tão claramente, entendo que ajustar a quantidade de equipes por divisão é uma decisão lógica, que, sabe-se lá o porquê, nem sequer faz parte das discussões públicas acerca do calendário nacional.
Para começo de conversa, faltam datas na elite do futebol brasileiro. Estamos todos cansados de ouvir que as equipes brasileiras são as que mais disputam partidas por temporada no futebol mundial.
Por dominarem não apenas os estaduais, mas também a Copa do Brasil e a Taça Libertadores da Améirca, os principais clubes do país não raramente ultrapassam os 70 jogos disputados em um ano.
Dessa forma, ainda que a Premier League seja mais desigual do que o Campeonato Brasileiro, os ingleses podem se dar o luxo de manter vinte clubes em sua elite, uma vez que não disputam estaduais, não mantêm a mesma dominância no continente e veem mais surpresas em suas copas nacionais.
E se, por um lado, faltam datas na elite para clubes que constantemente dominam também as copas nacionais e internacionais, sobram datas para clubes de divisões inferiores, que só disputam as fases mais agudas da Copa do Brasil em raríssimas exceções, ressaltei, no passado, que uma única equipe das divisões inferiores atingiu as quartas da Copa do Brasil nas últimas 5 temporadas.
A diferença no número de datas ocupadas é tão grande que, para essa temporada, as divisões inferiores começaram praticamente 2 meses depois do Campeonato Brasileiro da Série A e se encerrarão antes da elite.
Ainda assim, para além da discussão sobre as quantidades de datas disponíveis, meu principal argumento para a mudança nas quantidades de clubes por divisão é a viabilidade comercial de cada divisão do futebol nacional.
Pense da seguinte forma: ao disputar qualquer competição, o Flamengo carrega consigo a atenção de cerca de 40 milhões de torcedores.
De forma semelhante, o Corinthians carrega pouco mais de 30 milhões, o São Paulo quase 15 milhões e assim por diante (aqui, considero dados de pesquisa encomendada pela CBF no final do ano passado).
Naturalmente, as principais equipes do país, que carregam com elas as maiores audiências, estão praticamente sempre na primeira divisão.
Na segunda divisão, com exceção de passagens esporádicas de um ou outro gigante do futebol nacional, encontra-se uma mistura de potências regionais e equipes menores, com menor torcida.
O que temos, então, é uma situação em que cada equipe carrega, em média, muito menos atenção e tem muito mais datas disponíveis, dado que clubes das divisões inferiores não disputam competições internacionais e raramente atingem as fases agudas da Copa do Brasil.
Se esse é o caso, faz total sentido buscar concentrar mais times em cada divisão nacional, visto que a tendência é que, a cada camada, os clubes tenham sempre mais datas disponíveis e atraiam menos atenção.
Me parece muito claro que o futebol brasileiro deve funcionar como um funil, em que uma pequena elite disputa a principal divisão nacional e mais equipes se acumulam a cada nova divisão.
Quando a estrutura do futebol nacional é desenhada de forma que tanto o Campeonato Brasileiro da Série A quanto o Campeoanto Brasileiro da Série C sejam disputadas por vinte clubes, o resultado prático é um estafamento dos clubes de primeira divisão e uma falta de atenção às divisões inferiores.
O Campeonato Brasieliro da Série D é um bom exemplo de como essa estrutura deveria funcionar.
A competição só recebe o mínimo de atenção porque, em vez de 20 clubes, possui 64 no total, atraindo atenção em todos os estados do território, mesmo que composta, quase em sua totalidade, por times pequenos.
20 clubes pequenos do país jamais seriam capazes de atrair a atenção necessária para viabilizar a competição, ainda que times como Santa Cruz, América-RN e Paraná Clube ocasionalmente passem por ali.
Ao juntar dezenas de clubes menores, a competição se torna interessante o suficiente para que um público razoável a acompanhe.
É por esse motivo, inclusive, que a ideia de criar um Campeonato Brasileiro da Série A, empilhando quatro divisões de vinte clubes, não faz absolutamente nenhum sentido.
Meu principal ponto aqui é que diminuir o Campeonato Brasileiro da Série A não é um passo para prevenir que clubes menores sejam relevantes.
A ideia não é impedir times como Remo e Mirassol de acessar o Campeonato Brasileiro da Série A.
Pelo contrário, ao ajustar a quantidade de clubes em cada divisão (diminuindo o número de clubes na elite, mas aumentando no Campeonato Brasileiro da Série B e do Campeonato Brasileiro da Série C), o calendário aumentaria as oportunidades comerciais para que dezenas de potências regionais e bons projetos pelo país sejam viabilizados mesmo nas divisões inferiores.
O calendário brasileiro me parece inteiramente pensado para que, uma vez na vida, clubes como América/RN, CSA e Paysandu visitem a primeira divisão.
Deveria ser estruturado, no entanto, de forma que esses clubes, independentemente de em que divisão estejam, consigam ser viáveis e relevantes em suas respectivas regiões.
Reportagem: Mktesportivo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro