Leão XIV pede trégua olímpica e fala sobre valor educativo do esporte.
O papa Leão XIV publicou uma carta sobre o valor do esporte intitulada A vida em abundância, por ocasião da Olimpíada de Inverno 2026, aberta oficialmente hoje em Milão e Cortina d'Ampezzo, Itália.
No início da carta, o papa fala sobre o esporte como uma atividade comum, aberta a todos, "saudável para o corpo e para o espírito, a ponto de constituir uma expressão universal do ser humano".
O papa fala sobre o esporte como um meio de alcançar a paz e evoca a trégua olímpica da Grécia antiga, “acordo destinado a suspender as hostilidades antes, durante e depois dos Jogos Olímpicos”.
Ao contrário dos valores promovidos pelo esporte, como a coesão comunitária e o bem comum, o papa Leão XIV diz que a guerra “nasce de uma radicalização do desacordo e da recusa em cooperar uns com os outros”.
“O adversário é então considerado um inimigo mortal, a ser isolado e, se possível, eliminado”, diz o papa.
Assim, ele propõe uma trégua olímpica na próxima olimpíada e paralimpíada de inverno, exortando todos os países a redescobrir e respeitar "esse instrumento de esperança".
União entre corpo e espírito: O papa fala sobre o valor formativo do esporte, dizendo que a pessoa “deve sempre permanecer no centro”.
Ele também fala sobre a história, destacando a tradição paulina, por meio da qual muitos autores cristãos usaram imagens esportivas como metáforas para descrever a dinâmica da vida espiritual.
“Isso, até hoje, faz-nos refletir sobre a profunda unidade entre as diferentes dimensões do ser humano”, diz o papa. Leão XIV fala sobre o desenvolvimento de uma cultura em que o corpo, unido ao espírito, está plenamente envolvido em práticas religiosas, como peregrinações e procissões.
O valor educativo do esporte também é destacado, graças às contribuições de figuras como Hugo de São Vítor e São Tomás de Aquino.
A consciência da Igreja sobre a importância do esporte: Falando sobre o esporte como uma “escola de vida”, o papa cita grandes educadores como são Filipe Néri e são João Bosco, e a encíclica Rerum novarum publicada por Leão XIII em 1891, “que estimulou o surgimento de inúmeras associações esportivas católicas, respondendo assim, no plano pastoral, às novas exigências da vida moderna”.
Leão XIV diz que que a primeira olimpíada, em 1896, “propôs uma visão do esporte centrada na dignidade da pessoa humana, no seu desenvolvimento integral, na educação e na relação com os outros, destacando o seu valor universal como instrumento de promoção de valores como a fraternidade, a solidariedade e a paz”.
O Concílio Vaticano II, diz ele, “colocou a sua avaliação positiva do esporte no âmbito mais amplo da cultura”.
Ele também cita os Jubileus do Esporte promovidos pelo papa são João Paulo II.
“Graças à leitura dos sinais dos tempos, cresceu, portanto, a consciência eclesial da importância da prática esportiva”, diz o papa.
O papa Leão XIV, ávido jogador de tênis, cita o esporte em sua carta.
Ele diz que o tênis consiste “numa troca prolongada”, na qual cada jogador “leva o outro ao limite do seu nível de habilidade”.
“A experiência é emocionante e os 2 jogadores incentivam-se mutuamente a melhorar”, diz Leão XIV.
Oportunidade educativa: O papa diz que os atletas muitas vezes concentram toda a sua atenção no que estão fazendo e que, em esportes coletivos não contaminados pelo culto ao lucro, jovens "entram no jogo" em relação a algo muito mais importante para eles, que ele diz ser "uma formidável oportunidade educativa".
Para o papa, os treinadores têm um papel fundamental na criação de ambientes nos quais essas dinâmicas possam ser vividas.
Quando um treinador “é motivado por valores espirituais e humanos, e um jovem faz parte de uma equipe assim, ele aprende algo essencial sobre o que significa ser humano e crescer”.
Leão XIV diz que o esporte deve ser acessível a todas as pessoas que desejam praticá-lo e lamenta que, em algumas sociedades, mulheres e garotas jovens ainda não tenham permissão para praticar esportes.
Os riscos que colocam o esporte em perigo: O papa concentra-se então nos riscos que põem em causa os valores esportivos, especialmente os ligados a diferentes tipos de corrupção relacionadas com a economia e as finanças.
Leão XIV disse que surgem problemas quando os negócios se tornam a principal ou exclusiva motivação: "Quando se visa maximizar o lucro, dá-se valor excessivo ao que pode ser medido ou quantificado, em detrimento de dimensões humanas de importância incalculável”.
Quando o interesse econômico, especialmente entre atletas profissionais, se torna o principal objetivo, "eles correm o risco de se fixarem em si mesmos e nos resultados, enfraquecendo a dimensão comunitária do jogo e traindo o seu valor social e civil", diz ele.
O papa fala também sobre a “ditadura do desempenho”, que pode induzir o uso de substâncias dopantes e outros tipos de fraude, e “pode levar os jogadores de esportes coletivos a concentrarem-se no seu bem-estar econômico, em vez da lealdade à sua disciplina”.
Sobre isso, Leão XIV que a rejeição do doping e de todos os tipos de corrupção “é uma questão não só disciplinar, mas que toca o coração mesmo do esporte”.
O perigo de transformar paixão em fanatismo: O papa fala sobre espectadores que pertencem a uma equipe ou outra e alerta sobre o risco de o fanatismo se transformar em descontrole: "Pode tornar-se problemático quando se transforma num tipo de polarização que leva à violência verbal e física”.
“Aqui, o esporte não une, mas radicaliza, não educa, mas deseduca, porque reduz a identidade pessoal a uma pertença cega e opositora”, diz ele.
Em seguida, Leão XIV fala sobre a importância educativa do esporte, que “revela-se de modo particular na relação entre vitória e derrota”.
O papa diz que perder “não equivale a um fracasso da pessoa, mas pode tornar-se uma escola de verdade e humildade”.
“O esporte educa assim para uma compreensão mais profunda da vida, na qual o sucesso nunca é definitivo e a queda nunca constitui a última palavra”, diz o papa.
“Não é raro que o desporto seja investido de uma função quase religiosa”, diz Leão XIV.
“Os estádios são vistos como catedrais laicas, os jogos como liturgias coletivas, os atletas como figuras salvadoras. Essa sacralização revela uma necessidade autêntica de sentido e comunhão, mas corre o risco de esvaziar tanto o desporto quanto a dimensão espiritual da existência”.
O texto também fala sobre o perigo do narcisismo e do culto à própria imagem, que "ameaça fragmentar a pessoa, separando o corpo da mente e do espírito".
Redescobrindo os atletas santos: O papa fala sobre a necessidade de "redescobrir figuras que uniram paixão desportiva, sensibilidade social e santidade".
Ele cita são Pier Giorgio Frassati, jovem de Turim apaixonado por alpinismo "que unia perfeitamente fé, oração, compromisso social e esporte".
O documento também exorta para que se evite a manipulação política das competições esportivas internacionais: "Os grandes eventos esportivos deveriam ser locais de encontro e admiração mútua, não palcos para a afirmação de interesses políticos ou ideológicos".
O texto diz que as tecnologias de desempenho "correm o risco de introduzir uma separação artificial entre corpo e mente, transformando o atleta num produto otimizado, controlado e potenciado além dos limites naturais".
“Recuperar o valor autêntico do desporto significa, então, devolver-lhe a sua dimensão encarnada, educativa e relacional, para que continue a ser uma escola de humanidade e não um simples dispositivo de consumo”, diz Leão XIV.
Uma abordagem pastoral ao esporte para uma vida plena: O papa diz ser necessário que as Igrejas, em particular, “reconheçam o desporto como espaço de discernimento e acompanhamento, que merece um compromisso de orientação humana e espiritual”.
Ele diz que "implementar a prática desportiva como um instrumento comunitário aberto e inclusivo é outra tarefa decisiva".
Isso indica que a vida espiritual “oferece aos atletas uma visão que vai além do desempenho e do resultado”.
“Ela introduz o sentido do exercício como prática que forma a interioridade”, diz a carta. “Ajuda a dar significado ao esforço, a viver a derrota sem desespero e o sucesso sem presunção, transformando o treino em disciplina do humano”.
Por fim, o papa diz que "acumulação de sucessos ou desempenhos, mas de uma plenitude de vida que integra corpo, relações e interioridade".
“Assim, o esporte pode tornar-se verdadeiramente uma escola de vida, onde se aprende que a abundância não nasce da vitória a qualquer custo, mas da partilha, do respeito e da alegria de caminhar juntos”, conclui ele.
Reportagem: Acidigital.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro