Como Benim buscou brasileiros em projeto para virar nova potência africana.
Adversário da Argentina na despedida de Messi, país africano foca em infraestrutura e na diáspora para chegar à Copa do Mundo.
Marlon Freitas e Igor Paixão foram sondados.
A seleção do Benim, adversária da Argentina na despedida de Messi, nesta terça-feira (6), quer mudar seu patamar no futebol e se tornar uma potência africana.
Inspirados no trabalho bem-sucedido de vizinhos do continente, principalmente, o Marrocos, os guepardos estão modernizando sua infraestrutura, investindo na formação de jogadores e apostando na captação de filhos da diáspora espalhados pelo mundo. Inclusive, nascidos no Brasil.
Atletas brasileiros, que nunca representaram a Seleção em jogos oficiais, foram sondados pelo Benim.
Entre eles, medalhões como Marlon Freitas e Igor Paixão.
Até o momento, um jogador conseguiu a nacionalidade beninense e defendeu a seleção africana em partidas amistosas.
Recentemente, os governos das duas nações buscaram estreitar laços diplomáticos, evocando uma relação histórica, e realizaram uma série de acordos de cooperação econômica, militar e cultural.
O futebol não ficou de fora.
Nos últimos anos, o Benim tem dedicado muitos recursos para aumentar a relevância esportiva do país.
O investimento foi de cerca de 400 milhões de dólares (quase R$ 2,5 bilhões, na cotação atual), diretamente no futebol, com 24 estádios construídos ao redor do país.
Houve também forte incentivo para que grandes empresas do país assumissem o comando de clubes, para a criação de uma liga forte.
Para as seleções, o país está investindo na formação interna e captação de jogadores fora do território.
Alguns efeitos das políticas já são considerados bem-sucedidos, como a classificação da seleção feminina para a Copa do Mundo Sub-20 e a campanha masculina nas últimas Eliminatórias, que quase resultou em uma vaga no último Mundial.
"O sonho da seleção é participar de uma Copa do Mundo. Poder mostrar uma imagem interessante e relevante no país. Hoje conseguimos ver um resultado na seleção do Marrocos, então é um exemplo que pegamos. Não de fazer o mesmo modelo, cada país tem sua particularidade, mas um modelo exemplar de um pequeno país que possa ser tornar uma referência no continente", explicou o ex-jogador brasileiro Henrique Souza.
Em 2024, após acompanhar uma visita da delegação do governo beninense no Brasil, Henrique foi convidado para ser um conselheiro internacional do país, no futebol e em outros esportes.
Ex-zagueiro da dupla Fla-Flu, com longa passagem na França, ele articulou um intercâmbio de autoridades do país africano com clubes brasileiros.
Também coube a ele a importante missão de mapear jogadores ao redor do mundo que pudessem ter um vínculo com o país africano e que tivessem interesse de representar a seleção.
"Quando você conversa com o atleta que pode ser o atleta que vai jogar pela seleção do Benim, você não mostra para ele só o futebol, você mostra também tudo o que aconteceu com nossos antepassados, toda a história que vem por trás. Um atleta para representar o Benim tem esse aspecto técnico, mas também o educacional que é bastante relevante para gente. Porque ele vai ser o porta-bandeira da seleção com esse processo de interação entre o Brasil e o Benim", explicou Henrique.
Henrique conversou diretamente com Marlon Freitas, volante do Palmeiras, e chegou a convidá-lo para conhecer o Benim.
Também entrou em contato com o pai do atacante Igor Paixão, do Olympique de Marseille, que nasceu em uma região quilombola no Amapá.
Ambos negaram o convite por ainda manterem expectativa de representar o Brasil.
Um brasileiro no Benim: O match ocorreu com Felipe Santos, de 29 anos.
O atacante, nascido no interior de São Paulo, é um andarilho da bola que atualmente joga na Tailândia.
Na base, chegou a defender o Palmeiras e o Vasco.
O jogador levou um susto quando recebeu a ligação de Henrique com o convite para defender o Benim.
A proposta ia além de representar a seleção em campo, o Benim precisava de um jogador que pudesse se tornar um dos rostos do novo projeto.
A primeira visita ao Benim ocorreu em junho de 2025, seis meses após o convite, e foi marcante.
Ao pousar em Cotonú, seguranças entraram no avião e escoltaram Felipe e sua esposa até o hotel, conversou com ministros e o presidente. Visitou locais históricos do país e notou algumas familiaridades.
"A gente viu que é uma história rica, apesar dos problemas que tem na África. É um país que se parece muito com o Brasil. O calor do Brasil, eu estou falando de pessoas. São pessoas que tentam te ajudar, que são bem felizes, apesar da situação. Os alimentos também, muitas coisas saíram do Benim e foram para o Brasil".
Em 2024, o governo do Ben aprovou uma lei que facilitava o pedido de nacionalidade para afrodescendentes de todo o mundo.
Hoje, Felipe tem nacionalidade beninense, pôde participar de quatro amistosos e chegou a fazer um gol com a nova camisa.
Mas, por enquanto, não pode defender a seleção do país em competições internacionais.
No dia 10 de setembro, a FIFA (Federação Internacional das Associações de Futebol) divulgou um novo documento com as regras para um determinado jogador defender um país em que não nasceu.
Os requisitos são ter mãe ou o pai biológicos, ou avó ou o avô biológicos nascidos no território, o que não é o caso de Felipe.
Outra possibilidade é ser residente por 5 anos ininterruptos do país.
Casos excepcionais também são avaliados por um tribunal da entidade.
O setor jurídico da Federação do Benim entrou com uma petição na entidade para contar com Felipe, baseada no rastreio de informações familiares do atacante.
Por enquanto, o caso está em análise e, por isso, ele não pôde atuar em jogos válidos pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações.
Foi cogitada a possibilidade de o atacante enfrentar a Argentina, já que a partida é um amistoso, mas o Benim preferiu não incluí-lo nesta lista.
Conexão ancestral: Embora separados pelo Atlântico, o Benim teve um papel fundamental na construção da identidade do Brasil.
Nos séculos 18 e 19, os portos brasileiros receberam centenas de milhares de africanos escravizados que foram transportados à força a partir de Uidá.
Pessoas que ajudaram a formar a população brasileira.
"Dali vieram números significativos de africanos escravizados, que foram alocados principalmente nas regiões Nordeste e Norte do país", contou a historiadora e escritora Ynaê Lopes dos Santos.
"E foram fundamentais para a formação do Brasil do ponto de vista material, simbólico e cultural. Então esses homens e mulheres vieram sequestrados, foram explorados como trabalhadores escravizados, mas também trouxeram uma série de conhecimentos e legados".
Ynaê alerta sobre o apagamento histórico do lastro africano no período, seja pelas dinâmicas do tráfico de pessoas ou por estratégias utilizadas para inviabilizar pedidos de indenização de ex-proprietários, pelo fim da escravidão.
Contexto que faz com que grande parte dos negros do Brasil não tenha registro de suas raízes familiares.
Realidade de Felipe, que cresceu ouvindo histórias dos primeiros ancestrais a pisar no Brasil.
"Quando surgiu essa oportunidade, eu sentei com a minha vó e perguntei. Só que a minha vó também não tinha muita informação, ela só sabia que os avós dela tinham saído, que vieram para o Brasil escravos. Então através disso a gente começou a pesquisar a história dela, ainda mais da nossa raiz, da nossa raça", disse o jogador
Também nesse sentido, a historiadora considera positiva a aproximação entre Brasil e Benim, como uma forma de aprofundar as reflexões sobre os efeitos da escravidão no Brasil e de trazer luz sobre a importância dos africanos na formação do país.
"Essa possibilidade de recuperar o passado e o legado africano de uma maneira mais material e, inclusive, potencializando relações com o continente africano é fundamental para revisitar o Brasil e para a construção de um país mais democrático, menos racista, que é o que a gente quer".
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro