segunda-feira, 27 de abril de 2026

Planejamento do Iraque

Conflito no Oriente Médio afeta preparação do Iraque para a Copa do Mundo: "Temos planos A, B e C", diz técnico.

Em entrevista exclusiva ao Globo Esporte, australiano Graham Arnold conta que vai proibir redes sociais no elenco durante o Mundial para evitar que situação no país tire o foco da competição; estratégia já foi usada na repescagem, contra a Bolívia.

De volta à Copa do Mundo após 40 anos, o Iraque tem um adversário extra na sua preparação para o Mundial de 2026: o conflito no Oriente Médio, iniciado em fevereiro com a invasão ao vizinho Irã pela coalizão formada por Estados Unidos e Israel, que mantém toda a região em alerta. 

A menos de dois meses do Mundial, o técnico australiano Graham Arnold revelou, em entrevista exclusiva ao Globo Esporte, que a preparação da seleção iraquiana ainda está pendente dos rumos da guerra.

Arnold não sabe sequer quando poderá voltar ao Iraque, e até mesmo se conseguirá rever os jogadores antes do início da preparação.

"Temos planos A, B e C. O plano A é que o conflito no Oriente Médio termine, e isso se acontecer, se terminar definitivamente, então provavelmente estarei em um avião na semana seguinte para voltar a Bagdá e ajudar na preparação, assistir aos jogadores atuando na liga local e nos prepararmos. Se não terminar, obviamente isso afetará esse lado, o fato de não podermos voltar para lá e encontrar os jogadores antecipadamente", contou Arnold em conversa por vídeo, de Brisbane, no Sudoeste australiano.

Arnold também não sabe ainda onde começará a preparação para a Copa do Mundo. 

No cenário ideal, sem o risco de ataques, o treinador quer que a seleção iraquiana faça um amistoso em Basra, no Sudeste do país, para se despedir da torcida, em maio. 

Se não for possível, ele vai antecipar a ida para a Espanha, local escolhido para os treinamentos antes da viagem para os Estados Unidos, o plano é levar um grupo maior de jogadores, e só depois escolher os 26 da lista final de convocados, que precisa ser entregue à Fifa até o dia primeiro de junho.

Embora não esteja diretamente envolvido no conflito entre Irã e a coalizão Estados Unidos-Israel, o Iraque tem sofrido os efeitos colaterais da guerra, com ataques partindo dos 2 lados, tanto no território iraquiano como no Golfo Pérsico, tendo como alvo navios petroleiros. 

Bases americanas em Bagdá já foram atacadas por milícias iraquianas que apoiam os vizinhos iranianos, e a Guarda Revolucionária do Irã reivindicou um ataque a uma base militar em Erbil, no Sul do Iraque. Já as forças militares dos Estados Unidos e Israel bombardearam grupos paramilitares aliados do Irã em solo iraquiano.

O Iraque está no Grupo I e vai estrear contra a Noruega, dia 16 de junho, em Boston. 

Depois, jogará contra a França, dia 22 de junho, na Filadélfia, e então viajará para o Canadá, para o terceiro jogo da chave, contra Senegal, dia 26 de junho, em Toronto. 

Se necessário, Arnold pretende repetir na Copa a estratégia usada na vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia, em Monterrey, no México, pela repescagem mundial das Eliminatórias: isolar os jogadores das notícias da guerra, proibindo o acesso às redes sociais. 

O jogo que valeu a classificação ao Iraque foi disputado no fim de março, um mês após o início do conflito no Oriente Médio.

"Eu disse aos jogadores que eles precisavam confiar em seus pais, em suas famílias, que se algo acontecesse, eles ligariam. E claro, eles atenderiam o telefone, porque a família vem em primeiro lugar. Mas se ficarem deitados na cama lendo um monte de coisas negativas nas redes sociais, coisas que são todas negativas e metade delas são mentiras, isso afetará o sono de vocês, afetará o cérebro de vocês, e vocês não estarão prontos para o jogo contra a Bolívia".

Então será a mesma coisa na Copa do Mundo. 

Quando chegarmos lá, se o conflito ainda estiver acontecendo, e espero que não esteja, será exatamente a mesma coisa: confiem nos seus pais, confiem nos amigos, nos amigos próximos. 

Se alguém tiver algum problema, entrarão em contato com você e resolveremos na hora. 

Mas, caso contrário, proibição de redes sociais e vamos nos preparar para esses três jogos importantíssimos que temos pela frente.

Arnold, de 62 anos, foi contratado em maio de 2025 com a missão de classificar o Iraque para a segunda Copa do Mundo do país, quatro décadas após a única participação até hoje, quando a seleção iraquiana perdeu os 3 jogos que fez no Mundial de 1986, no México. 

Já o treinador australiano vai para sua quarta Copa do Mundo. 

As 2 primeiras foram como assistente técnico do seu país, na Alemanha de 2006 (quando a Austrália perdeu por 2 a 0 para o Brasil na fase de grupos) e na África do Sul-2010.

Na primeira experiência, como auxiliar do holandês Guus Hiddink, Arnold viu a seleção australiana se classificar em segundo na chave, sendo eliminada nas oitavas de final em um jogo duro contra a Itália: 1 a 0, com gol de pênalti nos acréscimos. 

Em 2022, já como treinador, Arnold levou a Austrália novamente às oitavas, quando caiu para a Argentina (2 a 1). 

Agora, com a possibilidade de se classificar até em terceiro lugar no grupo, o técnico espera repetir o feito com o Iraque.

"Vamos lá com a mentalidade de fazer algo que ninguém no mundo previu que poderíamos fazer, porque toda a pressão está sobre a Noruega, a França e o Senegal. Não está sobre o Iraque".

Confira a entrevista completa com Graham Arnold:

Globo Esporte: Como você descreve a sensação de classificar o Iraque para a Copa do Mundo em um momento como esse que o país está vivendo?

Sim, com tudo o que está acontecendo no Oriente Médio no momento, obviamente foi um grande desafio para os jogadores saírem do Iraque e de Bagdá, mas tivemos uma ótima conexão com a FIFA (Federação Internacional das Associações de Futebol), que nos ajudou com um voo fretado e com a viagem até Monterrey. 

Mas, no geral, foi um grande desafio, um desafio enorme, e os jogadores se adaptaram mentalmente muito bem, o que foi muito importante. 

Eles se desligaram do que estava acontecendo no Oriente Médio pelo bem do futebol e pela vitória sobre a Bolívia. 

Então, fiquei muito, muito orgulhoso deles.

Há 4 anos você viveu essa experiência, classificando a Austrália para a Copa do Mundo do Catar. 

Agora não é o seu país, mas é também uma circunstância especial, não?

Sim, totalmente diferente, porque obviamente um dos trabalhos mais difíceis no futebol é treinar a sua própria seleção. 

A pressão de treinar a sua própria nação, mas também o receio de desapontá-la com uma derrota. 

E você sempre quer alcançar mais sucesso com a sua seleção. 

Mas para mim, como eu disse, era um desafio que eu realmente queria enfrentar porque o Iraque não se classificava há 40 anos. 

E me lembro de 2005, quando eu era assistente do Guus Hiddink (o técnico holandês classificou a Austrália para a Copa do Mundo de 2006, encerrando uma espera de 32 anos), pelo impacto que isso pode ter no país, quando você não se classifica por muito tempo, mas também no futebol e nas próximas gerações de crianças.

Ao chegarmos lá, eu sabia que poderíamos ter uma grande influência nisso, mas ao mesmo tempo, passamos por 3 ou 4 decepções no caminho para o jogo contra a Bolívia (pela repescagem mundial). 

Mas, sabe, ver 46 milhões de torcedores (iraquianos) fanáticos por futebol... e acho que é uma parte do mundo que as pessoas não conhecem ou não entendem. 

No Iraque, o futebol é como uma religião. 

Eles têm feriado nacional quando o Barcelona joga contra o Real Madrid, são fanáticos por futebol, e poder fazê-los felizes foi incrível.

Ainda há muita preocupação com a situação no Oriente Médio, como isso está afetando a preparação do Iraque para a Copa do Mundo?

Sim, veja bem, temos os planos A, B e C. 

O plano A é, obviamente, que o conflito no Oriente Médio termine e, então, poderíamos fazer um pequeno período de pré-temporada lá (no Iraque), uma despedida para os torcedores que nunca tiveram a chance de comemorar com todos os jogadores e comigo, porque não pudemos voltar (após a classificação). 

E, como eu disse, você tem três ou quatro planos. 

O plano B é irmos para a Espanha e fazermos uma pré-temporada lá, tirando os jogadores do Iraque, de Bagdá, e levando-os para a Espanha mais cedo, por volta do dia 18 de maio, e então podemos ter uma boa preparação. 

Fazemos uma boa pré-temporada lá e alguns amistosos. 

E então partimos para os Estados Unidos.

Mas temos bastante tempo para nos prepararmos. 

Basicamente, é um mês de treinamento e preparação, e trata-se de os jogadores chegarem ao centro de treinamento e estarem prontos para isso, em forma e preparados para ir, obviamente, para a Copa do Mundo. 

Nós nos classificamos, mas ainda não conquistamos nada. 

Essa é a minha mentalidade: vamos lá, e obviamente temos um grupo difícil, mas vamos lá mentalmente preparados para surpreender o mundo e obter um ótimo resultado.

Você tem planos de ir ao Iraque nas próximas semanas?

Bem, novamente, é o plano A e o plano B. 

O plano A é que o conflito no Oriente Médio termine, e isso se acontecer, se terminar definitivamente, então provavelmente estarei em um avião na semana seguinte para voltar a Bagdá e ajudar na preparação, assistir aos jogadores atuando na liga local e nos prepararmos. 

Se não terminar, obviamente isso afetará esse lado, o fato de não podermos voltar para lá e, obviamente, encontrar os jogadores antecipadamente.

Estar na Espanha ajudará a preparar os jogadores para essa situação. 

Mas, como eu disse, morei no Iraque por provavelmente 8 dos 10 meses em que estou no cargo. 

E, como eu disse, tudo se resumiu ao fato de que eu precisava entender a cultura dos garotos iraquianos, dos jogadores, da comissão técnica e de todos, porque eu não podia levar a cultura australiana para o Iraque e fazer com que todos mudassem para a cultura de Graham Arnold. 

Graham Arnold é que teve de se adaptar a eles e ajustar algumas coisas para tirar o melhor proveito deles.

Você tem preocupações com a segurança da equipe na Copa do Mundo? 

Como fazer para os jogadores se concentrarem somente na competição?

É, olha, o que eu fiz nas últimas 3 janelas da FIFA e em 3 jogos importantes foi bloquear as redes sociais. 

Proibi completamente o acesso dos jogadores às redes sociais. 

Como havia o conflito no Oriente Médio, eu disse aos jogadores que eles precisavam confiar em seus pais, em suas famílias, que se algo acontecesse, eles ligariam. 

E claro, eles atenderiam o telefone, porque a família vem em primeiro lugar. 

Mas se ficarem deitados na cama lendo um monte de coisas negativas nas redes sociais, coisas que são todas negativas e metade delas são mentiras, isso afetará o sono de vocês, afetará o cérebro de vocês, e vocês não estarão prontos para o jogo contra a Bolívia. 

Então será a mesma coisa na Copa do Mundo. 

Quando chegarmos lá, se o conflito ainda estiver acontecendo, e espero que não esteja, será exatamente a mesma coisa: confiem nos seus pais, confiem nos amigos próximos. 

Se alguém tiver algum problema, entrará em contato com você e resolveremos na hora. 

Mas, caso contrário, proibição de redes sociais e vamos nos preparar para esses 3 jogos importantíssimos que temos pela frente.

E você pode encarar isso de duas maneiras. 

Pode, novamente, olhar para isso como algo relacionado ao que está acontecendo no Oriente Médio, ou pode ir para a Copa do Mundo e orgulhar o Oriente Médio com as melhores atuações da sua vida.

A Austrália avançou duas vezes da fase de grupos, com você como auxiliar, em 2006, e como treinador, em 2022. 

Acha possível repetir esse sucesso agora com o Iraque?

Sim, acredito que temos uma boa chance de nos classificar. 

Muitas equipes que terminarem em terceiro lugar vão passar na fase de grupos. 

Então, sabe, é tudo uma questão de ir um jogo de cada vez e garantir que você se prepare e esteja pronto. 

Portanto, o foco está totalmente na Noruega e em garantir que estejamos preparados para esse jogo. Obviamente, o segundo jogo é contra a França, e precisamos nos preparar para isso, e depois contra o Senegal.

Mas sabe, para mim, a mensagem que estou enviando aos jogadores é: há duas maneiras de encarar isso. 

Quando você entrar em campo, sai do túnel, antes de cruzar aquela linha branca, como você se sente? 

Está com medo ou animado? 

Porque faz muita diferença. 

E se você estiver com medo, bem, então você precisa me dizer e provavelmente então você não acredita em si mesmo o suficiente para ir lá e conquistar algo especial. 

Se você estiver animado e acreditar em si mesmo, então milagres podem acontecer. 

E nós nos preparamos para isso e vamos lá com a mentalidade de fazer algo que ninguém no mundo previu que poderíamos fazer, porque toda a pressão está sobre a Noruega, a França e o Senegal. 

Não está sobre o Iraque.

Você consegue imaginar a sua importância para o país caso consiga classificar o Iraque para a segunda fase? 

Você seria quase como um herói nacional, não?

Sim, mas não se trata de mim. 

Nunca fui assim. 

Sempre treinei para ajudar os jogadores e, sabe, os países. 

Acredito que treinar em clubes é completamente diferente de treinar em seleções nacionais. 

No futebol internacional, não existem contratos. 

Nenhum jogador assina contrato. 

Então, tudo se resume ao desempenho e à paixão de jogar pela sua nação. 

E não é o meu time, é o time do Iraque. 

E, sabe, quando eu estava na Austrália, não era o time do Graham Arnold, era o time da Austrália. 

E o importante é que faço isso pelo bem dos jogadores e da nação. 

Claro, será algo enorme, que beneficiará o Iraque. 

Mas, para mim, é um jogo de cada vez e começamos a nos preparar para o primeiro jogo. 

É como qualquer técnico, em qualquer país. Se você ganha, todo mundo te ama. 

Se você perde, todo mundo te odeia. 

É assim que funciona o trabalho de técnico.

Quais as lembranças da Copa do Mundo de 2006? 

A Austrália voltando à Copa do Mundo depois de 32 anos, e ainda enfrentaram o Brasil na primeira fase.

O que provavelmente era forte em nós naquela época eram os jogadores que tínhamos, jogadores de ponta que jogavam na Premier League inglesa, Harry Kewell, Mark Viduca, Tim Cahill, todos esses caras. 

E entramos naquele torneio, obviamente, com muita confiança. 

E o Guus Hiddink tinha muita experiência, obviamente, treinando em nível de Copa do Mundo. 

Provavelmente aprendi mais com o Guus Hiddink em 6 meses do que teria aprendido sozinho em 10 anos.

E ele fez os jogadores acreditarem em si mesmos. 

Contra o Brasil, achei que foi a nossa melhor partida em todo o torneio. 

E perdemos por 2 a 0. 

E, sabe, provavelmente jogamos nossa melhor partida, melhor do que a que jogamos contra o Japão, quando vencemos por 3 a 1. 

Obviamente, perdemos para o Brasil, depois empatamos com a Croácia em 2 a 2, o que nos garantiu a vaga nas oitavas de final. 

Essa foi a primeira vez na história do futebol australiano que passamos para as oitavas de final.

Mas contra o Brasil, como eu disse, senti que poderíamos ter tirado algo realmente bom daquele jogo em Munique. 

E, sabe, os rapazes, eu acho, saíram daquele jogo sentindo, “ei, nós pertencemos a este lugar”. 

Nós pertencemos aos mesmos campos, a este tipo de jogadores, Ronaldo e tudo mais. 

E isso poderia nos levar adiante, isso nos deu uma confiança, especialmente para o jogo contra a Croácia, para passarmos de fase. 

E no fim, perdemos para a Itália por um a zero.

E você sabe que deveríamos tê-los vencido. 

Um pênalti no último minuto, provavelmente hoje em dia, sim, talvez até fosse pênalti, mas se houvesse VAR, talvez pudesse ter sido revisto. 

Poderia ter sido 50/50 (de chance de anulação).

Quem são os favoritos ao título nessa Copa do Brasil na sua opinião?

Olha, acho que pode ser uma Copa do Mundo de surpresas. 

Sabe, pela diferença de fuso horário. 

Você vê que muitos jogos começarão ao meio-dia, e muitos jogadores não estão acostumados com isso. 

Acho que as condições climáticas, o calor, podem afetar muitas das seleções europeias, porque elas não estão acostumadas com esse tipo de calor. 

Então, acho que haverá algumas surpresas. 

Quais serão essas surpresas, é difícil dizer agora, mas acho que, novamente, as grandes seleções, como em 1994 nos Estados Unidos, algumas das grandes seleções não tiveram o desempenho esperado, e isso pode acontecer de novo.

Por todas as circunstâncias envolvendo o Iraque, essa será uma Copa do Mundo especial para você?

Pessoalmente. 

Esta é a minha quarta Copa do Mundo. 

Sabe, participei de 2 como auxiliar técnico (Alemanha-2006 e África do Sul-2010) e agora duas como treinador principal (depois de dirigir a Austrália no Catar-2022). 

Será uma honra ir para lá, obviamente, para mais uma Copa do Mundo e ver todos os grandes jogadores atuando novamente. 

E, obviamente temos um grande trabalho pela frente com o grupo em que estamos. 

Mas, sabe, eu sei que haverá muitos iraquianos lá, porque muitos iraquianos moram nos Estados Unidos e no Canadá, e teremos um grande apoio, o que é fantástico. 

Estou ansioso por mais uma experiência maravilhosa. 

E, claro, enquanto estivermos lá, deixaremos a nação do Iraque muito, muito orgulhosa.

De preferência, com mais destaque para o futebol do que para a política, não?

Sim, a política arruína o esporte, o esporte mundial, e não queremos que isso atrapalhe o maior esporte do mundo, bem como o maior troféu do mundo, que é a Copa do Mundo.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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