Contatos diretos com atletas vinculados e abordagens a técnicos empregados deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da dinâmica do mercado.
Sócio-investidor e presidente da Portuguesa SAF (Sociedade Anônima do Futebol).
Tem experiência em clubes como São Paulo, Santos e Figueirense, além de já ter atuado no futebol europeu.
Existe um problema estrutural no futebol brasileiro que ninguém quer encarar de frente: a completa banalização da ética nas relações profissionais.
E não, não estou falando de casos isolados.
Estou falando de prática corrente, naturalizada, aceita e, pior, incentivada.
Clubes entram em contato direto com jogadores que têm contrato vigente.
Técnicos empregados são abordados nos bastidores enquanto ainda comandam suas equipes.
Projetos são apresentados como pilares… até aparecer uma proposta financeiramente maior.
Virou regra.
O discurso é sempre bonito: “projeto”, “planejamento”, “visão de longo prazo”.
Na prática, o que prevalece é oportunismo de curto prazo. E isso tem consequências profundas.
Clubes que sabotam o próprio sistema: Quando um clube procura um atleta sob contrato com outro, ele não está sendo “mais competitivo”.
Está corroendo o próprio ecossistema do qual depende.
Hoje você assedia.
Amanhã será assediado.
Sem regras respeitadas, não existe estabilidade.
Sem estabilidade, não existe construção.
E sem construção, o futebol brasileiro continua girando em círculos.
A falta de convicção que desmonta qualquer projeto: Existe um sintoma claro dessa cultura.
Os clubes trocam mais técnicos ao longo de um ano do que o próprio campeonato tem de rodadas.
Isso não é ajuste fino, é desespero institucionalizado.
É a prova de uma gestão sem convicção, refém de resultado imediato e incapaz de sustentar qualquer linha de trabalho.
Não existe modelo de jogo que sobreviva, não existe vestiário que confie, não existe atleta que evolua num ambiente onde tudo muda a cada duas ou três semanas.
No fim, não é o treinador que fracassa sozinho, é também o clube que nunca soube o que queria desde o início.
Técnicos: discurso de projeto, prática de mercado: Há também uma incoerência evidente entre o que muitos treinadores dizem e o que fazem.
Pedem tempo.
Pedem confiança.
Pedem projeto.
Mas seguem atentos ao telefone.
Na primeira proposta financeiramente mais agressiva, o “projeto” deixa de ser prioridade.
E isso não é julgamento moral, é constatação de comportamento.
O problema é que essa lógica inviabiliza qualquer tentativa real de continuidade.
Jogadores e o ciclo dos intermediários: O jogador, muitas vezes, é o elo mais vulnerável dessa cadeia.
Cercado por empresários que, em diversos casos, são remunerados por transação, não por carreira, acaba sendo conduzido por decisões de curto prazo.
A pergunta raramente é: “isso é melhor para o atleta?”
A pergunta costuma ser: “qual é a próxima operação?”
E assim se constrói uma trajetória instável, fragmentada, muitas vezes aquém do potencial real do jogador.
O custo invisível: Essa cultura tem um custo que não aparece no balanço.
• Perda de credibilidade
• Relações frágeis
• Projetos interrompidos
• Decisões reativas
E, principalmente, um ambiente onde a palavra vale cada vez menos.
Ou muda, ou continua pequeno.
O futebol brasileiro precisa decidir o que quer ser.
Se quiser evoluir como indústria, vai ter que tratar contrato como contrato, compromisso como compromisso e palavra como ativo.
Isso não significa ingenuidade.
Significa profissionalismo de verdade.
Enquanto ética for tratada como opcional, o crescimento será sempre limitado.
Porque no fim, não é sobre moral. É sobre competitividade sustentável.
Reportagem: Mktesportivo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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