A queda da Itália além da seleção: como o futebol italiano foi de potência ao ostracismo na Europa.
Dificuldades financeiras, escândalo esportivo, estádios obsoletos, excesso de estrangeiros e outros problemas explicam queda de gigantes como Milan, Internazionale de Milão e Juventus.
Entenda.
A crise do futebol italiano tem muitas camadas e vai muito além da derrota para a Bósnia e Herzegovina e da ausência da Azzurra de 3 Copas do Mundo consecutivas.
Escândalo esportivo, más administrações, excesso de estrangeiros, dificuldade na formação de jogadores, estádios obsoletos e outras questões ajudam a explicar a queda do futebol na Itália, principal potência europeia no início do século XXI.
O torcedor mais jovem, acostumado com a soberania financeira e esportiva da Premier League, e com Barcelona e Real Madrid sendo o "destino óbvio" dos grandes craques, talvez não tenha noção de que o cenário já foi muito diferente.
Entre as décadas de 1980 e 2000, o Campeonato Italiano se sobressaiu na Europa.
No período, foram 8 títulos de Champions para a Itália, com ao todo 17 times italianos disputando finais de Ligas dos Campeões.
Queda financeira e adeus às estrelas: Na atual edição do principal torneio europeu, nenhuma equipe italiana chegou às quartas de final: o último campeão da Itália foi a Internazionale de Milão, em 2010.
A Internazionale, o Milan, a Juventus, e até outras equipes locais contavam com grandes estrelas do futebol.
Hoje, ocupam um papel totalmente secundário no mercado europeu.
Na última janela de transferências, apenas duas das 50 maiores transações foram para um time italiano (Openda e Jonathan David, ambos na Juve).
A mudança de cenário aconteceu no início da década de 2010, quando a Uefa aprovou o projeto do Fair Play Financeiro, um controle da saúde econômica dos clubes.
Em conversa com o Globo Esporte, em 2021, o economista Cesar Grafietti, especialista em gestão e finanças do esporte, explicou que os gigantes italianos passaram a ter dificuldades a partir daí.
Antes disso, os donos de Milan e Inter injetavam dinheiro todo ano para cobrir o déficit dos clubes.
Calciopoli, maior escândalo da história: Pouco antes da implementação do Fair Play Financeiro, o futebol italiano foi centro de um dos maiores escândalos da história do futebol mundial.
Em maio de 2006, após investigações, foi descoberto um grande esquema de manipulação de nomeações de árbitros para favorecer equipes durante 2004 e 2006.
Escutas telefônicas expuseram relações entre dirigentes de clubes e responsáveis pela arbitragem local e organização de indicações de árbitros favoráveis.
A Juventus, primeira colocada no Italiano em 2004/2005 e em 2005/2006, perdeu os 2 títulos e acabou sendo rebaixada para o Campeonato Italiano da Série B.
Milan, Fiorentina, Lazio e outras equipes também foram envolvidas.
Em tempos de crescimento econômico das ligas de Inglaterra e Espanha, a da Itália passava por um grande episódio de perda de reputação e credibilidade.
Estádios obsoletos: A Itália sediará, junto da Turquia, a Eurocopa de 2032.
Pelo menos é a programação definida pela UEFA (União das Associações Europeias de Futebol) até o momento.
Acontece que, enquanto os turcos já têm 12 estádios capazes de receber o torneio, a Itália não têm as mesmas condições para definir 5 sedes.
O Juventus Stadium, em Turim, inaugurado em 2011, é o único estádio moderno do país.
Não à toa a Juventus venceu 9 títulos consecutivos entre 2012 e 2020: um estádio de alto nível é capaz de gerar grandes impactos financeiros para um clube, entre valores de bilheteria, eventos extras e naming rights.
A Fiorentina e a Roma avançam em projetos de modernização.
A reforma estádio Artemio Franchi, em Florença, tem previsão de conclusão em 2028, enquanto a Roma tem projeto de moderna arena para ser inaugurada em 2029.
Levantamento feito em 2013/2014, comparando a arrecadação de grandes times europeus, escancarou a diferença dos italianos para os ingleses.
Enquanto o Chelsea recebia em média 78 euros por assento em suas partidas, Arsenal 69 euros e Liverpool 64 euros, Milan e Internazionale de Milão recebiam 12 euros e 11 euros em média, respectivamente.
A Juventus, já com seu estádio, arrecadava 37 euros por ingresso, diminuindo a distância.
A Itália corre contra o tempo para ter cinco estádios programados para terem condições de receberem o evento até outubro de 2026, data imposta pela UEFA como limite.
Caso contrário, o torneio poderá acontecer apenas na Turquia.
A Itália não recebe uma grande competição de seleções desde a Copa do Mundo de 1990.
Milan e Internazionale de Milão já caminham na construção de um novo estádio, mais moderno, no lugar do San Siro.
Apesar da previsão de conclusão das obras em 2031, visando à participação na Eurocopa, o presidente da Internazionale de Milão já admitiu que as burocracias italianas podem atrapalhar.
"Nos últimos 15 anos, 50 estádios foram construídos na Europa com um investimento de cerca de 20 bilhões de euros. Nesse período, apenas 3 estádios foram modernizados na Itália, então estamos muito atrasados. Não acho que o principal problema seja a necessidade de mais dinheiro, mas sim a lentidão da burocracia aqui", disse Giuseppe Marotta, mandatário da Internazionale de Milão.
Muitos estrangeiros e poucos jovens: Se em outras épocas, os clubes italianos atraíam grandes estrelas em seus auges, atualmente isso só acontece em fases finais de suas carreiras.
Na atual temporada, por exemplo, o Napoli contratou Kevin De Bruyne, aos 34 anos e em condições físicas abaixo do ideal, enquanto o Milan teve o reforço de Luka Modric, aos 40 anos.
Das 20 escalações com maior média de idade da atual edição da Liga dos Campeões, 9 foram de times italianos, mais precisamente 6 vezes da Internazionale de Milão (média de 30 anos no time titular) e do Napoli (média de 29 anos).
O campeão italiano da última temporada e o atual líder do torneio nacional pouco apostam em jovens jogadores.
E o futebol italiano também utiliza muitos estrangeiros: 68% dos jogadores que atuaram no atual Campeonato Italiano são nascidos em outros países.
E isso não é de hoje.
A Internazionale de Milão de 2010, último time da Itália a ser campeão da Champions, tinha uma escalação com 11 estrangeiros: Júlio César, Maicon, Lúcio, Samuel, Chivu, Cambiasso, Zanetti, Sneijder, Pandev, Eto'o e Diego Milito.
"Os times italianos têm muitos estrangeiros. Isso prejudica os jovens jogadores italianos, porque é como cortar as asas de um pássaro. As diretorias dos clubes preferem comprar um francês ou um suíço, porque são mais baratos. Isso porque os próprios times italianos supervalorizam os jovens talentos, mas que talentos são esses?!", destacou o jornalista Massimo Franchi, do TuttoSport, em conversa com o ge em outubro do ano passado.
Especialistas no mercado de transferências não veem relação do alto número de estrangeiros na Itália com a má fase da seleção.
Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de atletas como Vinícius Júnior e Endrick, isso não pode servir de desculpa.
"Inglaterra e Portugal tem um percentual maior de estrangeiros nas suas ligas, e suas seleções nacionais progrediram muito, em vários aspectos, ao longo das últimas duas décadas. Não existe problema algum com muitos estrangeiros na sua liga. Vejo como símbolo do declínio da seleção italiana o pequeno número de italianos atuando na principal e mais exigente liga do mundo, a Premier League. São poucos atletas atuando no nível mais alto".
Relatório ignorado de Baggio: Fatores como os já citados afetam a seleção italiana e prejudicam a atratividade do torneio local.
A Itália teve, em 2024/2025, a pior média de gols por partida das 5 principais ligas da Europa, atrás de Alemanha, França, Inglaterra e Espanha.
O cenário do futebol italiano poderia ser diferente.
Pelo menos foi o que tentou o ex-jogador Roberto Baggio, após campanha ruim na Copa do Mundo de 2010.
Na época, o então diretor técnico da Federação Italiana de Futebol (FIGC) redigiu um extenso relatório buscando inovações na estrutura do futebol no país.
No entanto, foi ignorado e acabou deixando o cargo em 2013 alegando que não o deixaram trabalhar.
"Apresentei meu projeto em dezembro de 2011, 900 páginas, mas eles continuaram com palavras vazias. Eu não gosto de ficar apenas sentado em uma cadeira, mas de fazer coisas, portanto, relutantemente, decidi sair", disse Baggio à televisão italiana, em 2013.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

Nenhum comentário:
Postar um comentário