terça-feira, 21 de abril de 2026

Após a aposentadoria

Ex-Flamengo, Diego Alves se dedica a ajudar atletas na transição de carreira: "De um dia para o outro, tudo muda".

Ex-goleiro cita exemplos de Danilo e Filipe Luís e diz que falta educação por parte dos clubes.

Um dia você tem uma rotina de treinos, viagens, competições e está sob os holofotes que a vida de atleta profissional proporciona. 

No dia em que decide se aposentar, a realidade é outra. Como lidar com o pós-carreira e o vazio que fica após anos dedicados ao esporte? 

Aposentado desde o início de 2025, Diego Alves, ex-goleiro multicampeão pelo Flamengo, se dedica a ajudar atletas que passam pelo processo de transição de carreira.

"Eu tive a lesão no joelho, me dediquei durante um ano para me recuperar, mas, no período lesionado, eu já comecei a dar um passo para fora da vida do atleta. Participei de eventos, conheci pessoas novas e, quando anuncio minha aposentadoria, eu já estava direcionado. Me entreguei durante os 25 anos de atleta profissional e, por mais que não tenha nada que preencha o vazio do futebol, tem vida fora dessa bolha. Dediquei toda minha vida ao futebol, e entendo que o que tenho de mais precioso é o meu tempo. Tenho amigos que viraram treinador e precisam se dedicar até mais do que quando eram jogadores. Optei por ganhar mais conhecimento em outra área", declarou Diego Alves ao Globo Esporte.

O ídolo rubro-negro anunciou a aposentadoria em janeiro de 2025, nove meses após deixar o Celta de Vigo, clube espanhol onde enfrentou uma grave lesão no joelho direito. 

Recentemente, ele criou uma empresa junto com João Pedro Castilhos, diretor do Osasuna (Espanha), que foca no desenvolvimento de atletas. 

A Nexus leva em consideração a experiência de Diego Alves, que passou por um encerramento difícil no futebol.

"Sempre gostei muito de conversar com as pessoas, minha infância foi muito próxima de jogadores, de ex-atletas. Quando você joga futebol, você tem que se dedicar 100%, mas a transição de carreira é um dos fatores mais importantes na vida do atleta. Você dedica 15, 20 anos da sua vida jogando futebol, com muita sorte, depois você tem mais 40, 50 anos de vida e vai ficar vivendo somente do que fez no passado? Quando anunciei minha aposentadoria, comecei a entender como funcionava a vida fora do futebol e percebi que existia um buraco entre as informações sobre o pós-carreira e o que acontecia na vida real. Precisava devolver para o futebol tudo o que eu aprendi. Por mais que eu tenha me planejado para a aposentadoria, foi um processo difícil", contou Diego.

"O atleta, quando começa a perceber que está chegando ao final desse ciclo, se desespera. Ele vive durante muitos anos sob agenda do clube, horários, dias, tempo de férias... E, de um dia para o outro, tudo muda, tem que criar a própria rotina, tem que ser marido, tem que ser pai, eu falo que é um momento de flutuação. Os atletas que conseguem juntar um patrimônio querem ser tudo, querem entender de tudo, e nesse momento que tem que ter cuidado, é preciso criar uma rotina que preencha essa falta de competição. E, se quiser voltar ao ambiente do futebol, tudo bem, mas que volte com a clareza de que quer aquilo, e não por obrigação. O atleta não sabe fazer mais nada a não ser jogar futebol, tem que estar disposto a estudar, buscar conhecimento, que foi o que fiz quando parei. Não dá para viver somente do atleta que ele foi. Se você viver no mesmo ambiente que viveu durante anos, você não consegue sair desse mundo", completou o ex-goleiro.

Exemplos de sucesso no Flamengo: Diego profissionalizou-se com a camisa do Atlético-MG, teve grandes passagens por Almería e Valencia e, na Espanha, tornou-se jogador de seleção brasileira e ganhou notoriedade por grandes atuações e por pênaltis defendidos diante de Cristiano Ronaldo e Messi.

Com 32 anos, porém, iniciou a passagem mais vitoriosa da carreira pelo Flamengo.

Foram 217 partidas e 11 títulos conquistados: 2 Taças Libertadores da América, 2 Campeonatos Brasileiros, 1 Copa do Brasil, 1 Recopa Sul-Americana, 2 Supercopas do Brasil e 3 campeonatos estaduais.

No Flamengo, conviveu com Filipe Luís, a quem conhecia desde os tempos de Espanha, e viu o amigo passar por um processo bem sucedido de transição de carreira. 

Depois de se aposentar no fim de 2023, o ex-lateral-esquerdo virou treinador da base rubro-negra em 2024. 

Passou por sub-17 e sub-20 e, em poucos meses, chegou ao profissional, tornando-se um dos técnicos mais vitoriosos da história do clube, com cinco títulos entre outubro de 2024 e março de 2026.

"Converso com o Filipe todos os dias, somos amigos desde os 18 anos. Ano passado, quando encontrei ele, falei que ele passou por todos os processos que uma pessoa bem sucedida na transição de carreira tem que passar. Todo mundo viu o Filipe treinador vitorioso, mas, quando ele entra no sub-17, ele tem que trazer uma pessoa para auxilia-lo", o Ivan dormia na casa dele, porque não tinham condições financeiras ainda. Ele estudava, não parava de ver jogo, de criar treinamentos e de buscar melhorias", destacou Diego, que acrescentou:

"Ele sempre foi uma pessoa apaixonada por futebol e continuou assim que terminou a carreira de jogador, mas ele pagou o preço. Soube diferenciar o atleta espetacular que foi do treinador. Começou embaixo, treinando o sub-17, perdeu dias de sono estudando, desceu tudo que tinha subido como atleta e começou o processo de forma correta. Ele já se preparava antes de parar, conversava com treinadores, pegava os treinos. Não é por acaso que ele está nesta situação, entendeu que tinha que pagar o preço. O atleta que terminou viajando de voo fretado começou como treinador viajando de ônibus para o interior do Rio. Agora está de novo na Europa estudando, a vida é constante aprendizado, e o Filipe passou por todas as etapas. Isso fez ele ter um começo de carreira incrível".

Ainda no Flamengo, Diego Alves acompanha casos de atletas que estão vivendo a reta final da carreira como jogador profissional. 

Um deles é Danilo, que já disse considerar se aposentar ao fim desta temporada. 

O zagueiro é exemplo dentro do clube, e o técnico Leonardo Jardim disse recentemente que é "um dos poucos que sabem envelhecer no futebol".

"Eu passei por isso e, a partir do momento que entendi que meu ciclo estava chegando ao fim, foi quando pensei em ajudar as pessoas que passam por isso. A cada ano que passa, a média de idade do auge do jogador mudar. Tem times na Europa que não contratam jogadores com 28, 29 anos mais. O Futebol está se atualizando, e o ego é você entender que não é mais aquele jogador de 20, 25, 28 anos, e você passa a ser importante de outra maneira, no vestiário, conversando... Esse ego também vale para fora do futebol", comentou Diego Alves.

"O Danilo é um cara com visão diferente, que 0,01% dos jogadores têm. Alex Sandro também já me falou que está chegando perto do fim. São pessoas que conheço. Atletas que estão parando na Europa me ligam para entender esse processo. O Danilo vem fazendo um trabalho espetacular e talvez ele seja aquele jogador que todo treinador quer no time, porque ele tem a consciência que, mesmo não jogando tanto, é importante de outras maneiras. Isso facilita muito ele pensar no pós-carreira, mas não quer dizer que vai ser fácil, por mais que você se prepare. Você tem que se cercar de pessoas que te auxiliem nas decisões do futuro", afirmou o ídolo do Flamengo.

"Falta educação nos clubes": Um dos projetos de Diego Alves é levar orientação e conscientização para jovens que estão iniciando a carreira e também para jogadores de divisões menos badaladas. 

Além disso, o ex-goleiro do Flamengo defende um trabalho de educação mais estruturado dentro dos clubes:

"Pesquisei muito e vi que nem os grandes clubes têm esse trabalho de transição de carreira. Há uma falta de informação grande. Muitas vezes os clubes estão interessados na performance, no resultado ou em vender o atleta. Educação financeira, por exemplo, seria importantíssimo. O Brasil é um dos países que mais exportam jogadores e não vai parar. Quando a gente apresenta esse projeto, as pessoas se interessam muito, porque não estamos falando só da parte financeira, mas de mentalidade. Os atletas não entendem que o que vai ditar o ritmo da vida depois da aposentadoria é a mentalidade, a saúde mental. Tem que perder o ego, não tem mais torcida te aplaudindo, imprensa te entrevistando... Tem uma dor. Devido a isso, o percentual de atletas que se perdem é alto. O quanto antes você ter conhecimento é melhor", disse ele.

"Cada atleta tem uma dor, um medo, uma dúvida. Muitos querem voltar ao futebol, outros não. Primeiro, fazemos um diagnóstico para entender o próximo passo. A transição de carreira não é só para os atletas que estão terminando o ciclo, esse trabalho tem que começar antes, para ter já um conhecimento sobre o que vem pela frente. A gente consegue potencializar o que o atleta quer fazer, temos um acompanhamento durante 12 meses para trabalhar cinco pilares: transição de carreira, saúde mental, saúde financeira, marca pessoal e empreendedorismo", concluiu Diego Alves.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

Nenhum comentário:

Postar um comentário