Guarani completa 110 anos em busca de reorganização financeira e protagonismo em campo.
Com aproximadamente R$ 150 milhões em dívidas, Bugre mantém salários em dia e trabalha para quitar pendências.
O Guarani amanheceu nesta sexta-feira (2) fazendo mais um aniversário, o centésimo décimo de uma história vitoriosa e regada de grandes momentos.
Com um passado glorioso, o clube luta agora para se reorganizar financeiramente fora de campo e voltar a ser protagonista dentro das quatro linhas.
Para isso, o Conselho de Administração do clube, representado na figura do presidente Ricardo Miguel Moisés, tem adotado uma postura "pés no chão", com jogadores escolhidos a dedo para a montagem de elencos que sejam ao mesmo tempo competitivos e caibam na atual realidade financeira do clube.
"A filosofia de trabalho nossa é essa, de trabalhar com os pés no chão e só dar o passo do tamanho da nossa perna. Então a gente jamais vai assumir compromisso que a gente não possa honrar. Então por isso essa administração trabalha com os pés no chão e, mesmo diante dessa pandemia, conseguiu manter os salários de todo o elenco em dia", explica Moisés.
Essa postura é parte do projeto de reestruturação financeira buscada pela diretoria. Conforme dados do presidente bugrino, o clube hoje:
Tem uma dívida total na casa dos R$ 150 milhões.
Sendo que 80% deles são de questões tributárias.
E R$ 20 milhões vêm diretamente de ações trabalhistas.
As ações vêm principalmente de gestões passadas, conforme mostrou o globo esporte quando a Justiça do Trabalho negou o plano apresentado para esse ano por falta de detalhamentos.
Os débitos envolvem muitos jogadores, funcionários e prestadores de serviço do clube e são concentrados principalmente na primeira metade da última década, quando o Alviverde passou um de seus piores momentos e teve, inclusive, o Estádio Brinco de Ouro da Princesa leiloado em decisão judicial.
Para tentar sanar, mesmo que aos poucos, essa dívida, a Justiça do Trabalho retém 20% das verbas que entram no clube hoje em dia, como vendas de jogadores e cotas de TV dos campeonatos, por exemplo.
Atualmente são mais de R$ 3 milhões retidos, segundo a diretoria, o que também diminui, de certa maneira, a capacidade de investir diretamente no elenco.
"O passivo que a gente tem atrapalha, sim, na gestão. A gente perde 20% nas nossas receitas e, se a gente tivesse esse valor disponível para investir, a gente estaria investindo na estrutura do clube ainda mais. Mas, mesmo assim, dá para montar elenco competitivo para brigar e gerir o clube", afirma Ricardo Moisés.
Além disso, a diretoria tem negociado as dívidas em curso e se esforça para manter os pagamentos em dia, evitando novas ações trabalhistas.
"A gente apresenta todas as defesas. Infelizmente alguns tributos não foram recolhidos no passado e existem essas demandas. O que a gente vem fazendo com o RH novo é controlar as novas demandas, fazer um trabalho de que não apareçam novas ações trabalhistas, respeitando o direito de cada empregado ou cada atleta da maneira correta e o valor certo".
"Então o trabalho na verdade é feito em duas frentes: uma que é diminuir o número de ações propostas na Justiça do Trabalho, pagando o que é devido na rescisão; e outra que é o trabalho de liquidação das ações com esses 20%. Com esse trabalho a gente espera em um curto espaço de tempo liquidar as pendências trabalhistas do Guarani".
Seja com a busca por novos patrocinadores, o corte de despesas ou o adiantamento de cotas das transmissões dos campeonatos, o Guarani vem conseguindo manter os salários em dia mesmo em meio à pandemia.
O próximo objetivo agora é conseguir o acesso à Série A para que o clube possa voltar a ser protagonista no cenário nacional.
"Nós temos que arrumar a casa, se a gente não se organizar, não se estruturar, a gente não vai a lugar nenhum. A gente tem que sonhar sim, a gente está no caminho certo, a passos largos para chegar nesse objetivo. Então o torcedor pode sonhar sim, porque a gente dando continuidade nessa gestão, o Guarani vai chegar", diz o presidente.
A base como caminho: Uma das formas encontradas pelo Guarani para fortalecer o caixa e também o elenco tem sido a aposta em jovens das categorias de base, que foi uma das forças do clube ao longo dos 110 anos de história.
Neste ano, por exemplo, metade do elenco inscrito para a disputa do Campeonato Paulista foi formada no Brinco de Ouro.
Uma forma de ter mais opções para a comissão técnica e valorizar jovens para vendas futuras.
Um desses pratas da casa, que deixou o clube ainda em 2015 e recentemente teve o nome especulado em uma negociação com o Chelsea, da Inglaterra, é Gabriel Menino.
O Bugre ainda tem 20% dos direitos econômicos do jovem jogador e já discute de que maneira poderia utilizar a verba caso a venda seja concretizada por cerca de 13 milhões de euros, como foi especulada.
"Isso é debatido no Conselho de Administração, a gente já vem conversando sobre esse assunto. E eu acho que a gente tem que fracionar esse valor, parte auxiliar na Justiça do Trabalho para quitação das ações trabalhistas, parte investir no elenco, para que a gente tenha força para buscar o acesso para a Série A, parte investir em estrutura. Temos que ter muita sabedoria e fazer muito com esses valores".
Tudo isso, claro, para que o Guarani possa retomar os anos de glória, como quando se tornou o único campeão brasileiro do interior, em 1978, ou chegou à semifinal da Taça Libertadores da América, em 1979.
"É uma comemoração que é nossa, do nosso clube, nossa maior alegria. E em breve vamos estar na Série A comemorando a reestruturação do Guarani", conclui Ricardo Moisés.
Reportagem: Globoesporte.globo.com
Adaptação: Eduardo Oliveira
Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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