quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quando o dinheiro passa por fora da quadra

Kawhi Leonard e Clippers expõe os limites do poder financeiro na NBA (National Basketball Association é a principal liga de basquetebol profissional da América do Norte) e levanta uma discussão necessária: até onde um clube pode gastar e quanto uma competição precisa saber sobre esse dinheiro?

Felipe Joseph é Coordenador de Relações Esportivas da Penalty e possui mais de 19 anos de experiência em marketing, publicidade e promoção.

O caso envolvendo Kawhi Leonard e o Los Angeles Clippers mostra o grau de sofisticação alcançado pelas estruturas de governança e controle financeiro das ligas esportivas norte-americanas. 

Estamos falando de um atleta All-Star, referência em fundamentos de defesa, campeão da NBA por dois times diferentes e  MVP (Premia o atleta com o desempenho mais excelente de toda a temporada regular) das finais em ambos títulos.

Em 2 de setembro, a NBA anunciou uma das punições mais severas de sua história. 

Depois de uma investigação independente conduzida durante um ano pelo escritório Wachtell, Lipton, Rosen & Katz, a liga concluiu que os Clippers haviam violado as regras de circumvention do salary cap, criando oportunidades de renda fora da quadra para Leonard por meio de empresas que mantinham relações comerciais com a franquia.

O resultado foi pesado: multa de US$ 30 milhões para os Clippers, perda de cinco escolhas de primeira rodada do Draft, referentes aos anos de 2029 a 2033, suspensão do proprietário Steve Ballmer por um ano, suspensão, sem remuneração, da presidente de operações de negócios Gillian Zucker por um ano e do presidente de operações de basquete Lawrence Frank por 6 meses, cinco anos de monitoramento de compliance e multa de US$ 700 mil para o próprio Leonard.

Dennis Robertson, tio e então gestor de negócios de Leonard, foi banido de atuar com equipes e profissionais ligados à NBA por 5 anos.

E o caso ganhou uma nova dimensão. 

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos abriu uma investigação criminal sobre as relações entre os Clippers e Leonard. 

A apuração está em estágio inicial e é conduzida pelo escritório do procurador dos Estados Unidos no Brooklyn. 

Segundo a Reuters, já houve pelo menos uma intimação e existe a possibilidade de apresentação das evidências a um grande júri. Isso, evidentemente, não significa que tenha havido acusação ou condenação criminal.

A pergunta que interessa ao esporte é outra: por que uma liga tão rica, com alguns dos clubes mais valiosos do planeta e atletas que movimentam milhões de dólares, precisa controlar quanto cada equipe pode gastar?

A resposta está diretamente ligada ao princípio de preservar uma competição saudável e atrativa.

O salary cap da NBA não foi criado para impedir que jogadores sejam bem remunerados ou que proprietários invistam em suas equipes. 

Importante informar que os salários dos jogadores da NBA são relevantes globalmente, mesmo em comparação com os melhores jogadores de futebol. 

O sistema estabelece uma arquitetura financeira que limita a capacidade de uma franquia transformar poder econômico em vantagem esportiva permanente.

Na temporada 2026/2027, o salary cap da NBA foi estabelecido em US$ 164,961 milhões por equipe. 

O valor que determina o chamado tax level é de US$ 200,428 milhões. 

A partir desse nível entram em funcionamento mecanismos de tributação, enquanto os chamados aprons estabelecem restrições adicionais para as equipes que ultrapassam determinados patamares de folha salarial. 

E a estrutura atual ainda estabelece o first apron, em US$ 209,015 milhões, e o second apron, em US$ 221,686 milhões.

A NBA construiu, ao longo dos anos, uma sofisticada engenharia financeira. 

Existem exceções, diferentes níveis de tributação, restrições para equipes acima dos aprons e mecanismos que tornam progressivamente mais difícil para uma franquia utilizar sua capacidade financeira para acumular vantagens.

O objetivo é claro: reduzir a discrepância esportiva entre quem pode gastar mais e quem pode gastar menos.

Em uma empresa tradicional, se um concorrente possui mais dinheiro, ele pode investir mais, contratar os melhores profissionais, ampliar sua operação e tentar dominar seu mercado. 

É parte da lógica competitiva do capitalismo.

No entanto, se uma equipe puder usar todo seu poderio financeiro para transformar essa vantagem econômica em concentração permanente de talentos, ela aumentará sua probabilidade de vencer, mas também poderá diminuir o interesse pelo campeonato. 

E ao longo do tempo isso tende a diminuir o valor global da competição na qual o time participa.

O valor do esporte está na incerteza. 

O jogo acontece ao vivo, e aí mora sua força para prender a atenção da audiência. 

O torcedor não compra apenas o espetáculo. 

Ele compra a possibilidade de que seu time possa vencer. 

E os resultados recentes ajudam a dimensionar essa discussão. Nas últimas oito temporadas, oito franquias diferentes conquistaram o título da NBA:

2026: New York Knicks. 

2025: Oklahoma City Thunder. 

2024: Boston Celtics. 

2023: Denver Nuggets. 

2022: Golden State Warriors. 

2021: Milwaukee Bucks. 

2020: Los Angeles Lakers. 

2019: Toronto Raptors.

Na prática, é o seguinte: em 8 temporadas, 8 times diferentes levantaram o caneco. 

É por isso que equilíbrio competitivo não significa necessariamente que todas as equipes tenham o mesmo dinheiro. 

Significa criar condições para que o dinheiro não seja capaz de determinar sozinho o resultado da competição.

É nesse ponto que o caso Kawhi Leonard se torna tão relevante.

Atletas são marcas. 

Possuem contratos publicitários, negócios próprios, investimentos e inúmeras possibilidades de monetização de sua imagem. 

Leonard, como qualquer grande estrela global, tem todo o direito de explorar seu valor comercial dentro das regras estabelecidas.

A liga concluiu que os Clippers iniciaram e facilitaram oportunidades de renda para Leonard com quatro empresas que mantinham relações comerciais com a equipe (Aspiration Partners, Boingo Wireless, Daktronics e Lockton Insurance) além de oferecer negócios da própria franquia como incentivo para que essas empresas celebrassem acordos com o jogador. 

A investigação também apontou o pagamento de despesas pessoais de Leonard e de seus representantes e a ausência de comunicação à liga sobre determinadas solicitações de renda feitas em nome do atleta.

Ou seja, o ponto central não está simplesmente no valor recebido por Kawhi Leonard. 

Está na possibilidade de que uma parte da remuneração tenha sido construída fora da estrutura que deveria determinar a remuneração dos atletas.

Se uma franquia encontra uma forma de remunerar seu principal jogador por caminhos que não estão disponíveis para seus concorrentes, o problema deixa de ser financeiro e passa a ser competitivo. 

A regra continua existindo no papel. 

Mas deixa de produzir o efeito para o qual foi criada. 

A maior ameaça a um salary cap talvez não seja o clube que gasta demais. 

É o clube que encontra uma maneira de fazer o dinheiro parecer que não foi gasto.

Foi justamente por isso que a NBA tratou o episódio como algo maior do que uma simples irregularidade contratual. 

Adam Silver afirmou que o sistema coletivamente negociado para determinar a remuneração dos jogadores é um componente fundamental da competição organizada pela liga, em benefício das equipes, dos atletas e, principalmente, dos fãs.

As regras financeiras de uma liga esportiva existem para proteger os clubes, mas, principalmente, para proteger o produto e manter o engajamento do torcedor.

Clubes maiores, mercados maiores, patrocinadores maiores, proprietários mais ricos e torcidas maiores inevitavelmente produzem vantagens.

A NBA decidiu que existe um limite e, ao longo dos anos, foi sofisticando seus mecanismos para restringir ainda mais a capacidade das franquias financeiramente mais poderosas de utilizar o dinheiro para construir elencos cada vez mais caros.

Quando uma liga cria mecanismos para aumentar o equilíbrio, ela não está necessariamente tentando nivelar todos os participantes. 

Muito menos nivelando “por baixo”. 

Está trabalhando para aumentar a quantidade de equipes capazes de acreditar que podem competir.

Uma competição mais equilibrada movimenta audiência, venda de ingressos, produtos licenciados, mídia, relacionamento com o torcedor e patrocínio. 

Para os patrocinadores, a percepção de que diferentes equipes podem disputar títulos também amplia o número de propriedades capazes de gerar relevância esportiva e comercial.

Em outras palavras, equilíbrio competitivo também é um ativo comercial.

Não existe mercado esportivo saudável quando a percepção de que “alguns podem tudo e outros não podem nada” passa a dominar a competição. 

No Brasil, ainda não acredito que o mercado esteja maduro para algum tipo de salary cap.

A NBA é a principal competição de basquete do mundo, tem os melhores atletas, movimenta bilhões de dólares, possui receitas de mídia globais, contratos comerciais de escala internacional, franquias com enorme capacidade de geração de receita e um modelo coletivo de negociação entre liga e sindicato dos jogadores construído ao longo de décadas.

O basquete nacional está em outro estágio de desenvolvimento, mas demonstra interesse em estabelecer responsabilidade financeira em toda sua cadeia.

Para participar do NBB, as equipes precisam cumprir uma série de requisitos administrativos e financeiros. 

O regulamento estabelece, entre outras exigências, a necessidade de comprovação de viabilidade financeira, adimplência com as obrigações financeiras junto à LNB (Liga Nacional de Basquete) e condições de infraestrutura. 

Esses requisitos são comuns aos participantes da competição.

A LNB também utiliza a chamada Certidão de Situação Regular de Valores Contratuais, conhecida no ambiente do basquete como “Livro de Dívidas”, mecanismo destinado a verificar a situação dos compromissos dos clubes com atletas e profissionais. 

A documentação da própria LNB prevê ainda participação das associações de atletas e técnicos na verificação dessas informações.

Antes de discutir quanto um clube brasileiro pode gastar, precisamos discutir se ele consegue pagar aquilo que está contratando. 

No Brasil, historicamente, houve casos de equipes que contrataram jogadores sem conseguir cumprir integralmente os compromissos assumidos e, posteriormente, voltaram ao mercado para formar novos elencos. 

Essa dinâmica também produz uma distorção competitiva: uma equipe pode continuar contratando novos atletas enquanto acumula passivos com profissionais de temporadas anteriores. 

No Brasil, o caminho para ampliar o equilíbrio financeiro passa primeiro por enfrentar o problema existente e, a partir daí, avançar para novas frentes. 

Ou seja, se uma equipe mantém pendências não regularizadas com atletas e comissão técnica, pode ficar impedida de participar das competições seguintes organizadas pela LNB.

Um projeto esportivo não pode ser considerado bem administrado apenas porque contratou grandes jogadores. 

É preciso saber de onde vem o dinheiro, qual é a previsibilidade dessa receita, quanto tempo ela estará disponível e qual será o impacto da operação caso o patrocinador deixe de investir.

Existe ainda uma segunda discussão que o caso americano coloca na mesa: transparência.

Basta uma simples pesquisa para acessar os principais valores dos contratos dos jogadores da NBA. 

Plataformas especializadas, jornalistas, agentes, torcedores e analistas acompanham duração, valores, opções, bônus e o impacto de cada acordo sobre o salary cap.

No basquete brasileiro, a realidade é muito diferente. 

E não estou defendendo necessariamente que cada contrato individual precise ser publicado. 

Ainda estamos longe dessa realidade na modalidade.

Mas talvez seja hora de discutirmos a transparência financeira agregada das equipes: Qual é o tamanho de sua receita? 

Quanto um clube investe em sua folha salarial? 

Qual percentual da receita é destinado ao elenco e qual percentual é destinado para equipe administrativa? 

Quantos meses de folha estão contratualmente garantidos? 

Qual é a proporção entre receitas recorrentes e receitas extraordinárias? 

Qual o resultado financeiro da operação?

Essas informações poderiam ser muito mais importantes para o mercado do que simplesmente saber quanto ganha determinado jogador.

Quando uma empresa associa sua marca a uma equipe, não está comprando apenas exposição de logotipo, audiência ou conteúdo digital. 

Está comprando associação de reputação. 

Por isso, governança deveria fazer parte da avaliação de um ativo esportivo. 

Levar essas informações, dentro de uma narrativa de governança e sustentabilidade, para uma mesa de negociação com parceiros pode ampliar a longevidade da parceria.

Uma competição que consegue demonstrar que seus participantes possuem responsabilidade financeira transmite mais segurança para patrocinadores, investidores, atletas, fornecedores e torcedores.

No caso do basquete nacional, seria necessário entender profundamente as diferenças de receita entre as equipes, os modelos de patrocínio, a participação de receitas públicas e privadas, a bilheteria, os investimentos em formação e a estrutura financeira de cada projeto.

Depois, maior padronização das informações financeiras. 

Na sequência, mecanismos de responsabilidade fiscal e limites de comprometimento. 

E somente então discutir se um teto salarial, um piso salarial ou outro mecanismo de controle financeiro faria sentido para a realidade brasileira.

Uma liga profissional reúne equipes que jogam umas contra as outras. 

No Brasil, as Ligas existentes são formadas por muitos times que não são exclusivos da Liga. 

Me refiro às equipes vinculadas a clubes multiesportivos, muitos deles historicamente associados ao futebol. 

Flamengo, Corinthians, Vasco, Botafogo, Cruzeiro e outros estão dentro de estruturas centenárias que não podem separar futebol das outras modalidades. 

Essa é uma diferença estrutural importante em relação à NBA. 

No Brasil, equipes de basquete, futsal e outras modalidades frequentemente estão inseridas em organizações esportivas multidesportivas. 

Uma decisão tomada na liga precisa, portanto, ser levada de volta para uma estrutura maior, que possui outras prioridades, outros orçamentos e outros interesses.

Se uma equipe deixa de pagar seus atletas, o problema é dela, mas também é da competição. 

Se uma equipe desaparece durante a temporada, o problema é dela, mas também é da competição. 

Se uma equipe possui recursos muito superiores e consegue transformar isso em vantagem permanente, o problema deixa de ser exclusivamente dela e passa a ser da competição.

No esporte, equilíbrio competitivo não significa que todos tenham o mesmo dinheiro. 

Significa que todos precisam acreditar que o dinheiro, sozinho, não será capaz de decidir quem vence.

E essa talvez seja uma das maiores diferenças entre vender um campeonato e construir uma competição.

Reportagem: Mktesportivo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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