terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Bastidores do ouro

Caio Bonfim revela bastidores inéditos da maior conquista do esporte brasileiro em 2025.

Caio Bonfim revela bastidores inéditos da campanha histórica no Mundial de Atletismo em 2025, com ouro nos 20 km e prata nos 35 km da marcha.

Em um ano em que o Brasil produziu 6 campeões mundiais (Yago Dora no surfe, Caio Bonfim na marcha atlética, Rebeca Lima no boxe, Henrique Marques e Maria Clara Machado no taekwondo e Rayssa Leal no skate), não é muito fácil definir qual foi a conquista mais importante do ano para o esporte nacional. 

Mas o fato do ouro de Caio Bonfim nos 20 km do Mundial de atletismo ter sido acompanhada da prata nos 25 km torna o feito do atleta de Sobradinho mais especial. 

Ainda mais pelo fato dos dois pódios terem sido conquistados depois de uma provocação feita pelo medalhista olímpico de Paris em 2024, que precisou convencer a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAT) e o Comitê Olímpico do Brasil (COB) a fazer uma preparação especial para que ele pudesse competir nas duas provas.

Eleito o atleta masculino do ano no Prêmio Brasil Olímpico, Caio Bonfim abriu os bastidores da campanha histórica que o colocou no topo do atletismo mundial. 

Em entrevista exclusiva ao Olimpíada Todo Dia, o marchador detalhou decisões estratégicas, dados científicos e desafios físicos enfrentados para conquistar a medalha de ouro nos 20 km e a medalha de prata nos 35 km da marcha atlética no Mundial de Atletismo disputado em casa.

A decisão de disputar 35 km e 20 km no mesmo Mundial: Um dos principais bastidores revelados na entrevista foi a escolha de competir nas duas provas, apesar da resistência inicial da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAT). 

A entidade defendia que Caio focasse apenas nos 20 km, prova em que havia conquistado a medalha olímpica em Paris.

Caio, porém, avaliava que suas chances de título eram maiores nos 35 km, mesmo enfrentando recordistas mundiais.

“Nos 20 km tinha o japonês Toshikazu Yamanishi, bicampeão mundial e que bateu o recorde mundial neste ano, competindo em casa. Para ganhar dele, teria que ser o dia perfeito. Já nos 35 km, eu sentia que tinha chance real de vitória”, explicou.

Para viabilizar a decisão, Caio contou que precisou convencer o presidente da CBAT, Wlamir Campos, e assumir a responsabilidade pelo risco envolvido. 

Mas a entidade, em parceria com o COB, ajudou o atleta montrar a estratégia para disputar as duas provas e ofereceu toda a estrutura necessária para que a missão desse certo.

O feito ganha ainda mais relevância porque, pela primeira vez, a prova mais desgastante do programa, os 35 km, foi realizada antes dos 20 km, exigindo uma recuperação física extremamente precisa para que o atleta conseguisse competir em alto nível poucos dias depois.

Ciência, dados e recuperação extrema: A preparação para disputar 55 km de prova em uma semana contou com apoio direto do Comitê Olímpico do Brasil (COB), que escalou o fisiologista Hélvio Affonso para acompanhar de perto o trabalho junto aos treinadores João Sena e Giannetti Bonfim, pais do atleta.

Após a prova dos 35 km, Caio passou por exames imediatos que indicaram níveis altíssimos de inflamação muscular, considerados extremos até para padrões de alto rendimento. 

A recuperação teve monitoração dia a dia, com ajustes em alimentação, hidratação, fisioterapia, treinos leves e controle de carga.

“Na quinta-feira antes dos 20 km, os dados já estavam muito bons. No sábado de manhã, os exames mostravam que eu estava igual ao dia anterior aos 35 km. 100%”, revelou.

“Ninguém chega sozinho”: Caio fez questão de destacar que o resultado histórico é fruto de um trabalho coletivo, envolvendo treinadores, equipe médica, fisioterapia, fisiologia e suporte institucional.

“Quando você traz um ouro e uma prata em provas tão duras, mostra que o trabalho foi muito bem feito de todos. Ninguém chega sozinho”, afirmou.

Segundo ele, compartilhar esses bastidores é importante para inspirar outros atletas e mostrar que o esporte brasileiro também opera em nível de excelência científica e profissional.

Domínio de prova e leitura de ritmo: Durante a entrevista, o marchador detalhou como a leitura de prova se tornou uma das principais armas em competições de alto nível. 

Para ele, o domínio vem da combinação entre treinamento, dados fisiológicos e conhecimento do próprio corpo.

“Quando você sabe exatamente como está fisicamente, você monta a estratégia em cima disso. Você sabe quantos quilômetros aguenta em determinada intensidade e quando pode acelerar”, explicou.

Essa leitura ficou evidente na prova dos 20 km, em que Caio adotou uma estratégia conservadora no início, deixou rivais assumirem um ritmo elevado e cresceu na parte final.

A estratégia que definiu o ouro nos 20 km: Segundo Caio, o ritmo imposto pelo grupo da frente era insustentável para a maior parte dos atletas, especialmente considerando o percurso e as condições da prova. 

A decisão de reduzir o ritmo depois de ter dado uma acelarada foi calculada.

O plano funcionou. 

Nas últimas voltas, Caio acelerou de forma decisiva, ultrapassou adversários e cruzou a linha de chegada como campeão mundial, sem cometer faltas técnicas, fator determinante em provas de marcha atlética.

“Eu sabia que, se fosse naquele ritmo, não chegaria até o final. Preferi dar um passo atrás, manter um ritmo que me colocasse na briga por medalha e confiar no meu final. Quando parece que eu estou crescendo na prova, na verdade eles estão caindo, porque é insustentável aquele ritmo que estavam”, contou.

A motivação para seguir no auge: Aos 34 anos, medalhista olímpico em Paris em 2024 e agora campeão mundial, Caio Bonfim explicou que a motivação segue intacta. 

Segundo ele, o combustível está na paixão pelo processo e no desejo de explorar o próprio limite.

“Eu sempre uso o discurso de ver até onde o meu talento pode ir. Cheguei no auge, então vamos prolongar esse auge. Vamos tentar fazer da próxima temporada mais um ano nesse nível”, afirmou.

Os próximos desafios de Caio Bonfim: O foco agora está no Mundial de Marcha Atlética de 2026. 

O evento vai acontecer em Brasília, além da sequência do ciclo olímpico rumo a Los Angeles 2028. 

Caio destacou a importância de respeitar períodos de descanso antes de iniciar uma nova temporada de construção.

“Trabalhamos por temporada. O corpo precisava parar, descansar, e agora é voltar e fazer tudo de novo”, explicou.

Questionado sobre até quando pretende competir em alto nível, o marchador foi direto: enquanto houver prazer, motivação e desempenho, seguirá em frente.

Reportagem: Olimpiadatododia.com.br

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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