sexta-feira, 22 de maio de 2026

O torcedor não é público. É ativo.

Existe uma confusão conceitual profunda no futebol brasileiro que custa dinheiro todo dia: tratar o torcedor como audiência.


Sócio-investidor e presidente da Portuguesa SAF (Sociedade Anônima do Futebol). 

Tem experiência em clubes como São Paulo, Santos e Figueirense, além de já ter atuado no futebol europeu.

O futebol brasileiro ainda trata quem enche o estádio como espectador. 

As gestões que vão dominar a próxima década entendem diferente.

Existe uma confusão conceitual profunda no futebol brasileiro que custa dinheiro todo dia: tratar o torcedor como audiência.

Audiência é passiva. 

Você oferece o espetáculo, ela assiste. 

Se for bom, volta. 

Se não for, muda de canal. 

Nesse modelo, o torcedor é o destino final do produto, e a gestão trabalha para entretê-lo.

Eu penso diferente. 

E os dados me dão razão.

O que os números mostram: O torcedor do futebol europeu gera, em média, 6 vezes mais receita por cabeça do que o torcedor brasileiro de clube equivalente. 

Isso não é consequência de torcidas mais apaixonadas. 

É consequência de modelos de negócio que tratam o torcedor como stakeholder, alguém que tem papel ativo na criação de valor, não apenas no consumo dele.

Na Portuguesa, começamos a entender isso na prática. 

O projeto de ingressos gratuitos não foi caridade, foi uma hipótese de negócio. 

E se o nosso problema não for preço, mas distância emocional? 

O resultado veio com crescimento de mais de 9 vezes no número de sócios-torcedores e de 3 vezes na média de público. 

Arquibancada cheia muda o produto. Muda o patrocinador. Muda a narrativa.

O torcedor como alavanca financeira: Quando você posiciona o torcedor como ativo, a lógica operacional muda completamente. 

Você para de perguntar “como vendo mais ingressos esse fim de semana?” e passa a perguntar “como aumento o valor do relacionamento com cada torcedor ao longo de anos?”

São perguntas diferentes. 

E levam a respostas diferentes.

A primeira leva a promoção, desconto, urgência. 

A segunda leva a programa de sócio, experiência, identidade, pertencimento. 

A primeira gera caixa pontual. 

A segunda gera recorrência, que é o que financia projeto de longo prazo.

No futebol que está sendo construído no Brasil, essa distinção vai separar quem sobrevive de quem cresce.

O que falta na maioria dos clubes: Não é tecnologia. 

Não é budget de marketing. 

É uma mudança de perspectiva sobre quem é o torcedor dentro do modelo de negócio.

Enquanto o clube enxergar o torcedor como alguém que precisa ser conquistado jogo a jogo, vai continuar refém do resultado em campo. 

Quando passar a enxergá-lo como parceiro de construção, alguém cuja lealdade tem valor financeiro mensurável, a operação muda de patamar.

Isso não é teoria. 

É o que diferencia os clubes que conseguiram escalar receita dos que continuam dependendo de venda de jogador para fechar o ano.

O que estamos fazendo: Na Lusa, esse reposicionamento é estrutural. 

Não é campanha. 

É estratégia.

Cada decisão que tomamos, desde os ingressos gratuitos até o Lusa SAF Day, desde a transparência nos resultados até a comunicação direta com a torcida, parte da mesma premissa: o torcedor precisa sentir que é parte do projeto, não espectador dele.

Porque quando ele sente isso, ele não abandona no momento difícil. 

E no futebol brasileiro, os momentos difíceis são regra, não exceção. 

Nosso time tem que responder a uma pergunta semanalmente: O que estamos fazendo para nos tornar um clube do qual as pessoas querem fazer parte?

A conclusão é simples: O clube que souber transformar base de torcedores em ativo financeiro gerenciado vai ter vantagem competitiva real e sustentável. 

Não é sobre ter a maior torcida. 

É sobre saber o que fazer com ela.

O torcedor não é público. 

É o negócio.

Reportagem: Mktesportivo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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