sexta-feira, 27 de março de 2026

Autonomia dos Clubes

CBF (Confederação Brasileira de Futebol) defende autonomia total de clubes em liga única e veta investidor com poder de decisão.

Entidade deve liderar processo, e cartolas preveem aumento automático de receitas quando bloco de 40 clubes estiver unido.

O plano da CBF para uma liga única no Brasil inclui autonomia total dos clubes nas decisões comerciais do bloco, sem a presença de um investidor externo que tenha poder sobre esses temas.

Essa é a diretriz que será discutida com dirigentes das 40 equipes do Campeonato Brasileiro da Série A e do Campeonato Brasileiro da Série B que vão se reunir no Rio de Janeiro, no próximo dia 6 de abril, no primeiro encontro promovido pela entidade para tratar do assunto.

Desde a criação da Libra, o primeiro bloco, em 2022, a CBF se manteve fora das discussões, ao menos, formalmente. 

Era um acordo do então presidente, Ednaldo Rodrigues, que garantiu aos clubes liberdade para que se organizassem.

Nunca houve um acordo, porém. 

Dissidências depois levaram à criação do que hoje é o Forte Futebol União (FFU), e os 2 grupos tiveram foco, principalmente, na venda de direitos de transmissão para o ciclo atual, que termina em 2029. 

A promessa de que se juntariam para a criação de uma liga jamais avançou.

Nos últimos meses, conflitos internos enfraqueceram os blocos. 

A Libra se viu numa batalha judicial com o Flamengo por causa de repasse do dinheiro dos direitos, enquanto a FFU passou a ser questionada por diversas equipes que disputam o Campeonato Brasileiro da Série B e do Campeonato Brasileiro da Série C, incomodadas com os contratos que lhe cabiam.

Há cerca de dez dias, tanto a Libra como a FFU realizaram encontros e ambas divulgaram comunicados em que citavam a necessidade de a CBF fazer parte do processo de unificação. 

Na última quinta, a confederação enviou ofício aos 40 clubes das duas primeiras divisões convidando-os para o encontro em abril.

Apesar disso, a CBF deve encontrar resistência nesse início, especialmente entre clubes da FFU: o modelo pretendido pela entidade nacional se choca com o modelo atual do bloco que reúne 32 equipes.

A FFU é formada por dois entes distintos: a associação de clubes, onde os dirigentes debatem e alinham interesses, e o Condomínio, estrutura onde são realizados os acordos comerciais.

No condomínio estão 2 polos de interesse, os clubes, com 80% dos votos, e o investidor, a Sports Media Participações, com 20%, adquiridos ao aportar R$ 2,6 bilhões em 2023 para comprar parcelas entre 10% e 20% dos direitos de transmissões das equipes por 50 anos.

Segundo cartolas ouvidos pela reportagem, apesar de deter a maioria dos votos, em diversas decisões os clubes precisam compor com o investidor, já que aprovações dependem de 90% dos votos, o que dá à empresa, na prática, poder de veto.

Na CBF, essa estrutura é citada como “inadmissível” numa liga, que seria controlada pela entidade e pelos clubes. 

A presença de investidores é admitida, desde que eles não tenham ingerência no bloco.

Nas últimas semanas, esse se tornou também o cerne de uma disputa interna na FFU, o CSA, de Alagoas, acionou a Comissão de Ética da CBF e o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) justamente para questionar esses pontos, e há outros clubes incomodados.

Recentemente, a CBF fez gestos às equipes do Campeonato Brasileiro da Série B, que desde o ano passado têm reclamado do que consideram contratos ruins.

Primeiro, a entidade se tornou a responsável pela negociação dos direitos de São Bernardo e Náutico, que subiram do Campeonato Brasileiro da Série C e não faziam parte de nenhum dos 2 blocos, por valores então superiores aos das equipes da FFU.

Depois, ao ouvir protestos sobre os custos de logística e arbitragem do Campeonato Brasileiro da Série B, se comprometeu a pagar essas despesas desde que os clubes aderissem a um plano de reestruturação financeira liderado pela ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol). 

Todos assinaram.

Ao contrário da Libra, cujo modelo de negociação se assemelha ao desejado pela CBF e em que dirigentes como a presidente do Palmeiras, Leila Pereira, é aliada de primeira hora do presidente Samir Xaud, a FFU sempre esteve mais distante da entidade, os clubes do bloco, em maioria, apoiaram Reinaldo Carneiro Bastos na última eleição da confederação, em 2025.

Na CBF, uma saída citada como possível para superar a barreira do investidor na criação da liga seria a dos clubes recomprarem as parcelas de seus direitos que foram vendidas à Sports Media, num cenário de crise financeira, principalmente das equipes menores, essa opção se torna complicada.

Não há um prazo para a formação da liga. 

Dirigentes da entidade acreditam que o ideal seria tê-la tão logo seja possível para que um “novo produto” esteja formatado para a venda de direitos do ciclo que se inicia em 2030.

Cálculos apontam que os direitos atuais dos clubes da Libra e da FFU tenham somado R$ 3 bilhões. 

E os cartolas acreditam que podem usar o bolso para convencer a Sports Media a abrir mão da participação em decisões.

Para isso, estimam um crescimento automático de receitas quando o bloco de 40 clubes for ao mercado, o que valorizaria, também, o percentual que hoje está com a empresa investidora.

Há outro caminho, mais conflituoso e incerto, que está sendo rascunhado em gabinetes de Brasília.

Recentemente, o deputado federal Beto Pereira (PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira do Mato Grosso do Sul-MS), membro da Comissão de Esporte da Câmara, solicitou uma análise da estrutura da FFU à Secretaria de Futebol e Direitos do Torcedor do Ministério do Esporte. 

A conclusão do órgão, descrita em nota técnica do dia 24 de março, é de que a Lei Geral do Esporte e a Constituição indicam restrições à presença de um investidor com poderes como os da Sports Media em ligas desportivas.

A FFU defende que não há irregularidade na relação com a Sports Media, segundo nota:

“O negócio celebrado pelos associados da FFU está em conformidade com a legislação brasileira. Os direitos comerciais são patrimônios disponíveis dos clubes, e o modelo firmado não compromete a autonomia das entidades, nem a organização das competições e a integridade do campeonato. A estrutura adotada limita-se à exploração econômica desses ativos em formato compatível com as melhores práticas internacionais. Além disso, a governança prevê a participação direta dos clubes na comercialização dos direitos, em um formato que gerou a maior receita da história na venda de direitos de arena”.

A reunião do dia 6 de abril, com a presença apenas de representantes dos clubes, indicará por onde a discussão vai seguir nos próximos meses.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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