terça-feira, 4 de junho de 2024

Visita de Bob Marley no Brasil

Como uma visita quase vetada pela ditadura uniu Santos e Bob Marley em foto histórica no Rio de Janeiro.

Cantor era apaixonado por Pelé e pela seleção brasileira. 

Em sua única viagem ao Brasil, quase interrompida por governo autoritário, músico bateu bola com artistas e ganhou camisa do Peixe.

Maior nome da história do reggae, Bob Marley ganhou o mundo cantando por liberdade, justiça social e resistência do povo negro. 

Em sua biografia, porém, não há um show no Brasil. Mas o país estabeleceu uma ligação com o músico por meio de outra paixão: o futebol. 

Tanto que um dos raros registros dele em terras brasileiras é com a camisa do Santos, o time de Pelé, em clique do fotógrafo Walter Firmo.

A única visita de Bob ao Brasil foi em 1980, um ano antes da morte do cantor, nascido em Nine Mile, na Jamaica, em 1945. 

Naquela ocasião, o governo militar impediu Bob Marley de se apresentar aos brasileiros por não ter concedido a ele um visto de trabalho. 

Mas a ditadura não evitou que o cantor participasse de uma pelada com personalidades da época e vestisse o manto do Peixe.

É essa história que o ge resgata por aqui, depois de o filme "Bob Marley: One Love" ganhar as telas do cinema recentemente. 

Para começar, é importante relatar que o cantor, em sua juventude, viu o Brasil ganhar três Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970). 

Pelé, por causa disso, era seu ídolo. E se ele gostava do Rei, gostava também do Santos, time do maior de todos os tempos de 1956 a 1974.

Bob, inicialmente, tinha sido convidado para estar no Rio de Janeiro na inauguração das atividades da gravadora alemã Ariola no Brasil. 

Àquela época, o mercado fonográfico estava aquecido no país. 

E nomes como Gal Costa, Maria Bethânia, Fábio Jr., Alceu Valença, Milton Nascimento, Zé Ramalho e Baby Consuelo estavam em alta.

Um eventual show de Bob Marley, portanto, poderia ser consequência da visita, mas como já citado acima, essa possibilidade foi vetada pelo governo autoritário da época.

Sem poder ser protagonista em cima de um palco, o cantor brilhou num campo de futebol, ao lado de nomes importantes da música brasileira, como Chico Buarque, Toquinho e Alceu Valença, e também Paulo Cezar Caju, campeão do mundo com Seleção em 1970, no México.

"O Bob era muito fã do futebol brasileiro, sobretudo do Santos do Pelé. Ficou emocionado de ter conhecido o Paulo Cezar Caju, que tinha jogado a Copa de 1970. Ele estava em estado de graça", contou Toquinho, fanático torcedor do Corinthians.

Bob Marley morreu em 1981 por complicações de um melanoma (câncer de pele).

No lugar de canções, dribles: A partida de futebol com a presença ilustre de Bob Marley foi realizada no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, no campo do Politheama, time de peladas do cantor Chico Buarque.

"A partida já estava combinada. O Bob veio numa coisa sôfrega, um imediatismo. Foi uma viagem de comprometimento com a gravadora. Eles se emanaram, ficou uma coisa social, praticável", relembrou o fotógrafo Walter Firmo, hoje com 86 anos, em entrevista ao Globo Esporte.

Os times foram divididos da seguinte maneira:

De um lado, Bob Marley, Caju, Toquinho, Chico Buarque, Junior Marvin (guitarrista da banda The Wailers) e Jacob Miller (vocalista do grupo Inner Circle).

Do outro, Alceu Valença, Chicão e outros quatro funcionários da gravadora. O jogo teve ainda a participação do jornalista João Luís Albuquerque .

Bob Marley e companhia venceram por 3 a 0, com um dos gols sendo anotado pelo astro do reggae, aproveitando passe de Caju.

"O Bob era um canhotinho esperto. Era muito ligeiro, rápido mesmo. Evidentemente que não era um jogador profissional, mas dá para dizer que ele era quase um atleta", afirmou Firmo.

Foi nessa pelada que Bob foi presenteado com uma camisa do Santos.

"A gravadora trouxe um artista deles, que era o Bob Marley. No Brasil, ele não era tão conhecido ainda, não tinha a dimensão que ele tem hoje. Bateu uma bola conosco e, particularmente, não sabia que ele jogava. Não me lembro de como foi feita a entrega da camisa do Santos, não sei dizer quem deu a ele, mas o Bob adorou", contou o músico Toquinho.

Ditadura quase frustrou os planos: Responsável por trazer a Ariola ao Brasil, o produtor musical Marco Mazzola foi quem ajudou a organizar a viagem de Bob Marley ao Rio de Janeiro.

Em seu livro “Ouvindo estrelas: a luta, a ousadia e a glória de um dos maiores produtores musicais do Brasil”, ele explica o porquê do jamaicano não ter se apresentado por aqui.

Segundo Mazzola, a chegada de Bob Marley ao país foi conturbada. 

A aeronave que trouxe o músico e sua equipe saiu de Trinidad e Tobago e fez uma primeira escala em Manaus para abastecimento.

"O voo teve duas escalas para abastecimento. A primeira, em Manaus, Amazonas, nos causou bastante preocupação, já que o governo militar deteve o jato por algumas horas para checar os passageiros", escreveu Mazzola.

"Desconfiaram daquelas figuras e fizeram todos apresentarem o passaporte e explicar o motivo da viagem ao Brasil. Em seguida, foram liberados, porém sem o visto para trabalho ou qualquer apresentação artística", completou Mazzola, em sua autobiografia.

Bob Marley ainda fez uma rápida parada em Brasília antes de desembarcar no Rio de Janeiro. 

Na Cidade Maravilhosa, além da pelada com outros artistas e da camisa do Santos, um de seus times do coração ao lado do Everton, da Inglaterra, e Celtic, da Escócia, o jamaicano visitou a orla de Copacabana e o Morro da Urca.

No Morro da Urca, Bob Marley esteve para a festa de lançamento da Ariola na casa noturna "Noites Cariocas". Moraes Moreira e Baby Consuelo se apresentaram para um público de mais de 800 pessoas, entre elas Milton Nascimento, Ney Matogrosso e Marina Lima.

Havia uma grande expectativa para que Bob Marley e sua banda também se apresentassem. 

No entanto, sem o visto de trabalho, os jamaicanos ficaram receosos de ter algum problema com o governo da época.

Os relatos dizem que até houve um coro na plateia pedindo pelo Rei do Reggae, porém não houve show.

Santos quer parceria com a marca de Bob: A imagem de Bob Marley com a camisa do Santos virou um símbolo da internacionalização da marca do clube da Vila Belmiro quando o debate sobre o assunto sequer existia.

Nos bastidores, por sinal, a atual diretoria do Peixe negocia uma parceria com a família do cantor jamaicano para celebrar a união entre o futebol arte e o reggae que conquistaram o mundo.

Depois do sucesso com o uniforme estilizado do Charlie Brown Jr., o Santos tenta unir sua marca com o principal ícone do reggae. 

O produto que sairia dessa união ainda não foi definido, porém dificilmente teria os mesmos moldes da parceria com a banda santista por conta do contrato vigente com a Umbro, fornecedora do material esportivo do Peixe.

Nas duas ações envolvendo Santos e Charlie Brown Júnior, tanto o clube como a banda tinham contrato com a Umbro, o que acelerou o trabalho do departamento de marketing. 

Com a família Marley, que não tem vínculo com a empresa inglesa, o processo seria diferente. 

Ambas as partes estudam o que pode ser feito para que a parceria seja concretizada.

Há um interesse mútuo entre o clube da Vila Belmiro e os herdeiros do principal nome do reggae. 

As conversas estão em andamento há semanas e a expectativa é de que, em breve, um acordo seja assinado. 

A ideia é justamente utilizar as imagens de Bob Marley com a camisa do Santos como referência na campanha.

Na loja oficial de Bob Marley, com um de suas sedes nos parques da Disney, na Florida, já há um item sendo comercializado sob o nome "Santos Rasta White T-Shirt" e custa US$ 30 (em torno de R$ 154). 

A camisa faz referência ao uniforme do clube da Vila Belmiro, porém com o nome "Bob" no lugar de Santos.

Na data da publicação desta reportagem, o produto estava esgotado sem a previsão de reposição dos estoques. 

Procurado pela reportagem, o departamento de marketing do Peixe diz que o item não está licenciado e, portanto, configura pirataria.

Cultura de arquibancada santista: Hoje, quase 45 anos depois, o Santos e os santistas se orgulham da história. 

Em 2015 e 2016, o clube se reaproximou da família Marley e chegou a entregar camisas do clube aos filhos do ilustre cantor.

O próprio Pelé se encontrou com os familiares do jamaicano nos Estados Unidos e lamentou não ter conhecido Bob Marley em vida.

Nas arquibancadas da Vila Belmiro não é raro se deparar com alguma faixa, camisa ou boné unindo Bob Marley e Santos. 

A Torcida Jovem, principal organizada do Peixe, adotou a imagem do astro do reggae como uma espécie de patrimônio cultural do clube da Vila Belmiro e utiliza o rosto de Bob em seus mais diversos artigos.

Recentemente, antes do clássico com o Corinthians pela fase de grupos do Campeonato Paulista, o Santos fechou um acordo com a Paramount Pictures para a promoção da cinebiografia do cantor “Bob Marley: One Love”. 

No estádio, além de diversas ações dentro e fora de campo, o sistema de som tocou diversas das famosas canções do jamaicano.

Reportagem: Globoesporte.globo.com

 

Adaptação: Eduardo Oliveira

 

Revisão de Texto: Ana Cristina Ribeiro

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